"Semanas Euclidianas : histórias e questões"

Carmem C. T. Maschietto

    Receber o convite para proferir a conferência oficial da Semana Euclidiana causaria em muitos rio-pardenses arrepios de pânico. Comigo foi exatamente o que aconteceu. Pânico por ter que enfrentar uma sempre erudita e exigente assistência de euclidianos convictos, acostumados com o brilho da palavra dos maiores nomes da intelectualidade brasileira.

    Como ocupar convenientemente uma tribuna que já foi palco de pronunciamentos memoráveis?

    Sendo apenas uma entusiasmada professora de História, respeitosa admiradora de Euclides da Cunha e de suas obras, apenas uma rio-pardense encantada com o culto secular que esta cidade lhe presta, como não desapontar aos que me distinguiram com tão honroso convite?

    Sobre que tema falar? Do que se pode ainda falar, que alguém antes já não tenha feito, e melhor? Tive vontade de recuar. Não houve jeito e tive mesmo que encarar o desafio.

    Aqui estou eu: entre tímida e apavorada, entre muito orgulhosa e meio engasgada, a desincumbir-me desta tarefa, como de um dever que não poderia deixar de cumprir.

    Recorri ao amigo Rodolpho e ele franqueou-me seus apontamentos. Seu livro, Conhecendo Euclides da Cunha, foi outra fonte indispensável. Pesquisei na Hemeroteca Paschoal Artese. Lá encontrei informações inestimáveis. Trabalhos publicados pela Profa. Amélia Trevisan foram fundamentais. O Prof. Lázaro forneceu-me dados da Casa Euclidiana. Consultei pessoas. Revi fotografias. Alguns fatos estavam represados em minha memória e não tive como contê-los. Transbordaram para o coração e infiltraram-se no texto.

 

    O convívio diário com o ensino de História facultou-me o hábito de observar, analisar e comparar. Aos poucos, foi ganhando corpo uma idéia. Não propriamente um tema. Por que não reconstituir fatos, acontecimentos, tentar interpretar um pouco as comemorações euclidianas ? Afinal, elas são parte importante da história da cidade.

    Nos apontamentos do Prof. Rodolpho, encontrei o interessante caso da crônica de Rubem Braga, respeitado cronista do Estadão. Era convidado da cidade, na Semana Euclidiana de 1940. Chegou atrasado, foi muito bem recebido, mas não gostou nada do que viu na cerimônia do dia 15, na Herma. Publicou uma crônica alguns dias depois. Simplesmente ridicularizou o que viu. Disse, entre outras coisas, que ali se encontravam "gente da roça, pobres mulheres com seus filhinhos no colo, pobres crianças de menos de um ano, que ali estavam a comer poeira e a ouvir discursos, nas festas populares". Referindo-se a Euclides da Cunha, escreveu: "se esse caboclo pudesse vir espiar a festinha que lhe arranjaram ... "

    Ao ler a crônica, de imediato deduzi : Que sujeito mal-educado ! Não entendeu nada do que viu ! Depois, pensando um pouco, meio ofendida, imaginei que uma daquelas crianças bem podia ser eu. Não com minha mãe, que não gostava de muita fala, mas com meu pai que não perdia passeata, conferência, exposição, audição, baile, sessão de cinema, banda na praça, sempre aprendendo, sempre participando, opinando e incentivando suas crianças "a não ficarem à toa na vida sem ver a banda passar" . Como todo bom pai naquele tempo sempre fazia.

    Acontece que, em 1940, o Brasil ainda era um extenso mundo rural. Havia coisas mudando e outras resistindo, não querendo mudar. Assim, era até possível que o arguto observador identificasse entre os oradores que discursavam à beira-rio, um coronel do passado. Se não chegasse atrasado. Mas, ao só enxergar a pobreza do povo, sem entender a nobreza das intenções, demonstrou ser preconceituoso, não ter lido ou entendido o autor de "Os Sertões", que naquele momento era comemorado. Autor que não era santo e nem fazia milagres, mas havia feito sérias denúncias contra o Brasil civilizado que dava as costas ao seu povo ou, mais do que isso, o assassinava. Era isto, exatamente, o que o povo ali escutava, aprendia e guardava. Depois ia usando em sua vida as lições que assimilava, mandando os filhos para a escola como Euclides aconselhava.

    Pobre cronista, convidado mal-educado, que perdeu tempo muito importante e algumas sérias amizades, que não soube ao menos desfrutar de graça de uma autêntica "festa do interior ", que já existia há meio século e, hoje, passou da outra metade.

    Continuei pesquisando aquela época de passagem do velho mundo rural para o mundo da cidade. Queria compreender como as Semanas Euclidianas acompanharam as transformações da cidade.

    Primeiro, foram as visitas dos amigos à cabana. Um jeito simples de lembrar de alguém que foi muito querido. Compreenderam que o lugar era importante. Merecia ser preservado. Conseguiram o que desejavam. A herma foi colocada e em torno fizeram um belo jardim. Foram anos de visitas, até que o 15 de agosto virou " dia de Euclides ", feriado municipal.

    Depois veio o tempo do Grêmio Euclides da Cunha. Amigos antigos e novos admiradores passaram a organizar as festas do "dia de Euclides" feriado oficial da cidade. Além da visita à Herma, havia festas à noite. No melhor clube da cidade. Convidavam gente importante, que sabia falar bonito. Havia sempre um jantar, um "sarau ", "uma sessão lítero-musical ". Tudo muito organizado, muito bem planejado, com convites, participação das escolas e de toda a sociedade.

    O Grêmio e a Prefeitura tomaram medidas acertadas. Construíram a redoma de vidro, embelezaram mais o jardim, convidaram mais gente importante, até que a festa criou raiz. Ficou sendo famosa, conhecida em todo Brasil.

    Foi assim que a cidade provinciana, quase escondida num ramal da Mojiana, foi ficando conhecida com a "festa euclidiana" .

    Ganhou títulos pomposos, que acrescentou a outro mais antigo : "Cidade Livre do Rio Pardo", " Meca do Euclidianismo", "Berço de Os Sertões". Recebeu outros. Porém, estes são suficientes para mostrar às gerações do presente o quanto Euclides da Cunha foi importante para a história desta cidade, mesmo aqui tendo vivido por tempo bem limitado. Mas foi tempo suficiente para construir uma ponte, escrever um livro, cativar amigos, elaborar projetos, publicar artigos, gerar um filho, marcar bem sua presença, sua residência, seu escritório de zinco, deixar e levar saudade...

    Aquele foi um tempo de crescimento, de pujança do café, que concentrou poder e riqueza em São Paulo, entre grupos de fazendeiros do velho mundo rural. Mas a situação estava mudando, a indústria chegando, abrindo oportunidades às classes trabalhadoras.

    Veio a crise econômica e, com ela, revoluções. Os oligarcas enfraqueceram-se e perderam o antigo poder. Grupos novos despontavam em ascensão social. A classe média crescia. Havia novos problemas e outras necessidades. Mas havia espaço para o povo e acenos de democracia.

    Surgiam novas idéias entre intelectuais descontentes. Havia questões em jogo a colocar em relevo problemas que Euclides havia denunciado. Era preciso valorizar as raízes do povo e a cultura popular. Entender o homem do campo e resolver os problemas sociais.

    Na São José provinciana, havia também alterações. A cidade crescia e a sociedade se transformava. Já eram " quarenta mil euclidianos " que na cidade viviam, no dizer de Paschoal Artese, que tudo no jornal "Resenha" anotava. Eram médicos, professores, engenheiros, advogados, comerciantes, artesãos, operários, pequenos proprietários, trabalhadores da roça que mudavam para a cidade.

    A educação melhorava. Já existiam dois bons grupos escolares. O Ginásio do Estado estava com prédio novo e a moçadinha inteligente enchia as salas de aula. Havia muito trabalho, muita esperança, muito otimismo nos lares.

    No ano de 1938, aconteceu uma novidade : uma Comissão decidiu que as festas euclidianas deviam durar uma semana inteirinha. É que todos concordavam que elas eram importantes e elevavam o conceito sobre a cidade. Assim, a partir daquele ano, começaram, com muito êxito, as Semanas Euclidianas.

    Só quem as viveu por longos anos avalia o quanto foram importantes na vida dos jovens da cidade : formaram lideranças, esculpiram talentos, modelaram personalidades, abriram caminhos e alimentaram ilusões...

 

    Já a partir de 38, a Comissão foi alertada para o fato de que as comemorações sobre Euclides deveriam ser melhor direcionadas. Que havia muita exaltação, muita emoção, muito discurso inflamado. Que a cada 15 de agosto o "sangue de Euclides fervia " ! A polêmica estava lançada. Houve quem não concordasse e os que deram razão. O certo é que, no ano seguinte, pelo sim ou pelo não, o Prof. Hersílio Ângelo instituiu, com muita propriedade, a Maratona Intelectual Euclidiana.

    Foi uma forma muito oportuna de levar Euclides da Cunha para as salas de aula, onde seria estudado, analisado, compreendido e não apenas endeusado.

    Foi assim que o Euclides dos poetas deu lugar ao Euclides dos professores.

    Começava o Estado Novo. Período de exaltação das massas e de nova política educacional. Havia um novo ideal de homem a ser concretizado: valorizavam-se os atributos do corpo e os valores do espírito. A escola e os professores eram instrumentos essenciais na concretização desse ideal, que visava formar as futuras gerações e fomentar "a eugenia da raça " . A educação física e o canto orfeônico passaram a ser disciplinas obrigatórias no currículo escolar. As datas cívicas deveriam ser comemoradas com desfiles grandiosos. "Nacionalismo, juventude, monumentalidade ": havia um clima fascista no ar ...

    As Semanas Euclidianas nasceram e cresceram nesse contexto e foram por ele muito influenciadas. Nunca houve Semana Euclidiana sem estudantes, professores, escolas, desfiles, competições esportivas, música, políticos, discursos inflamados. Para São José do Rio Pardo, a Semana Euclidiana é a maior data cívica. Nenhuma outra data tem merecido comemoração igual. Até hoje.

    Vamos conferir se isto pode ser verdade, consultando os jornais da época.

    No mesmo ano da instalação da "1.ª Maratona Intelectual ", em 1940, foram instalados também a "1.ª Olimpíada Euclidiana ", o " 1.º Concurso de Robustez Infantil ", seguido de " O Mais Belo Sorriso Infantil". Nas cerimônias do dia 15 de agosto, naquele ano, pela primeira vez, a passeata foi precedida por um "desfile de atletas e esportistas, animados por tambores e cornetas ", além da banda, dos fogos, dos estudantes, professores, autoridades e convidados . A imprensa noticiou que foi "um espetáculo inédito e maravilhoso, sendo muito aplaudido ". Faço aqui um parênteses para lembrar que foi exatamente esta a "festinha " que o cronista Rubem Braga disse que viu. Só que nada enxergou. A imprensa noticiou e elogiou duas apresentações de canto orfeônico . Uma de Mococa, no Cine Colombo, e outra do Grupo Cândido Rodrigues, ambas consideradas "um espetáculo esplêndido". No estádio da Associação os alunos do Ginásio fizeram uma "disciplinada" demonstração de ginástica, " para uma colossal assistência ". A maior autoridade política presente era o Dr. Getúlio Vargas Filho, representando seu pai, o Presidente da República. Um "monumental baile de gala "encerrou as comemorações.

    Como vimos a receita foi cumprida à risca: "nacionalismo, juventude, monumentalidade".

    Esse modelo de Semana Euclidiana foi criado pela 1.ª Comissão de Festejos, liderada pelo Dr. Oswaldo Galotti, seu exímio mentor e coordenador por várias décadas. Praticamente, esse modelo é seguido até hoje, com pequenas modificações. O fato é que as Semanas encontraram o terreno preparado pelos antigos festejos. Elas apenas ampliaram o calendário de festas, preenchendo-o com atividades planejadas de acordo com as características da época.

    A característica de festa monumental já era cultivado há muito tempo. O Prof. Rodolpho anotou: " Em 1927, ( ... ) o ( ... ) 15 de agosto teria, além da homenagem a Euclides ( ... ) , a comemoração do 2.º Centenário da Cultura do Café e a grande festa de instalação do partido fascista na cidade. Havia ( ... ) delegações ( ... ) fascistas de dez cidades ( ... ) e ( ... ) da Itália.

    O recanto euclidiano foi pequeno para tantos ( ... ) .

    Às quatro da tarde, diante da Matriz, o bispo de Ribeirão Preto ( ... ) benzeu o estandarte ( ... ) fascista ( ... ) oferecido pelas senhoras italianas de São José. A grande massa popular seguiu em préstito cívico ao Clube Recreativo, onde assistiu a uma bem elaborada sessão lítero-musical. Entre os muitos oradores, o euclidiano Dr. Francisco Teive Magalhães, comentando a cidade e Euclides, declarou-se fascista rubro... "

    Lembro que o Dr. Teive, um " euclidiano histórico ", foi o primeiro diretor da Casa Euclidiana.

    Sobre o ano de 1928, anotou: " Prefeitura e Grêmio convidaram os rio-pardenses e visitantes para as comemorações euclidianas, no dia 15 : à tarde, no "jardim da ponte "e à noite no "Clube Ao Ponto ".

    Às duas e meia da tarde, autoridades, famílias, sociedades civis nacionais e estrangeiras com seus estandartes, linha de tiro, professores e alunos dos dois grupos escolares e das escolas isoladas, populares de todas as nacionalidades e a banda, formaram um cortejo de mais de duas mil pessoas , que desceu ruas rumo ao recanto euclidiano, ouvindo ( ... ) ao senhor prefeito, Dr. Zito, que declarou inaugurado o abrigo-redoma da cabana ( ... ).

    A noite (...) estava reservada a outro poeta : (...) sua conferência (...) divinizando o saudoso escritor, foi interrompida por aplausos diversas vezes.

    Um "sarau dançante " encerrou o dia glorioso ( ... ). "

    Este foi o clima criticado, em 1938, e que criou tanta polêmica. Esta forma de cultuar Euclides, criada pelos amigos e incentivada pelos poetas, é que as Maratonas Intelectuais poderiam amenizar, ao estimularem o estudo da obra e do autor entre os estudantes, Tudo o mais, no entanto, continuou do mesmo jeito sendo comemorado de modo grandioso, respeitando o que já era tradicional. Aos poucos, as Semanas Euclidianas foram sendo estruturadas em setores : intelectual, artístico, esportivo e social.

    Tudo indica que foi no final da década de 40 e início dos anos 50 que a Maratona foi oficializada, estabelecendo-se alguns temas mais abrangentes para a dissertação. Até então, eram privilegiados os aspectos literários e lingüísticos da obra euclidiana.

    A instituição dos Ciclos de Estudos, em 1961, foi outro momento importante para o aprofundamento e extensão da Maratona Intelectual. O prof. Márcio José Lauria disse-me que o grande mérito dos Ciclos de Estudos foi estimular professores do 2° grau a se especializarem em diferentes aspectos da obra euclidiana, com o objetivo de melhor preparar os maratonistas, concentrados em São José durante a Semana Euclidiana.

    A década de 70 foi a do auge dos Ciclos de Estudos, que pareciam ter encontrado uma fórmula capaz de atender tanto à necessidade de preparar os maratonistas, como a um crescente número de professores que se inscreviam nos Ciclos, com diferentes motivações. Aquela fórmula, contudo, acabou se desgastando e foi sendo reformulada.

    Em 1979, o prof. Álvaro Ribeiro de Oliveira criou a Área II, dos Ciclos de Estudos, destinada aos alunos de sétima e oitava séries do 1° Grau. Foi então que comecei a atuar como professora dessa área, ao lado dos colegas Valdir Ferreira e Rodolpho Del Guerra.

    Os anos 80 e 90 foram marcados por um sensível esforço de superação dos problemas surgidos anteriormente. Os Ciclos foram ampliados, procurando atrair professores universitários, pesquisadores e ex-maratonistas. Também têm procurado aproximar-se de outros núcleos do euclidianismo, no Rio de Janeiro e na Bahia.

    Os resultados têm sido bastante positivos, apesar das dificuldades , que inevitavelmente sempre ocorrem. O momento é muito propício para uma reflexão séria sobre este assunto. Afinal, estamos no fim do século e do milênio, hora de fazer um balanço das conquistas feitas e preparar as próximas; de unir esforços, experiências e competências em torno de um diálogo produtivo, que redunde em benefícios para o euclidianismo e para as próprias Semanas Euclidianas.

    Merecem ser analisadas as demais atividades desenvolvidas durante a Semana Euclidiana. Pesquisando, compreendi que elas, em grande parte, são responsáveis pelas "fases de deslumbramento" e "fases de depressão " dessas comemorações. Isto porque é a parte visível e acessível ao grande público. As Semanas Euclidianas criaram e alimentaram, ao longo dos anos uma expectativa de monumentalidade. O público sempre espera que esta expectativa seja atendida.

    De que forma ? Através de uma "coreografia ", apresentada no desfile, nas atividades esportivas, artísticas e sociais. Quando estas atividades não se revestem da grandiosidade esperada, a avaliação da Semana não será boa. Mesmo que a parte intelectual tenha sido magnífica. Esta observação vale também quando ocorre o contrário. Neste caso, serão os intelectuais e os euclidianos que ficarão insatisfeitos.

    As pessoas de minha geração costumam dizer que as Semanas Euclidianas perderam o brilho, que já não são como antigamente. A que Semanas estão se referindo ? Com certeza às do final dos anos 40 e às das décadas de 50 e 60. Por que recordam-se desse período como uma época de ouro ?

    Que referenciais podem ser tomados?

    O desfile de abertura passou a ser um referencial, a partir de 1946, quando teve início . Saía do Ginásio do Estado e rumava para o estádio da Associação. Rapazes e moças apresentavam-se impecavelmente uniformizados. A roupa refletia o ideal de homem (e de mulher) a ser formado. Os rapazes vestiam fardas de brim cáqui, com talabartes de couro a tiracolo. Sob as fardas, camisa social branca e gravata preta. As meninas, tanto quanto os rapazes, marchavam em formação perfeita, em filas de três. Vestiam saia de quatro pregas, de lã azul-marinho, de comprimento comportado. A blusa era de algodão, branca, monograma, azul no bolso, gravata na mesma cor. Talvez fosse um toque masculino, ou apenas para lembrar que eram eles que mandavam. Depois, veio a calça comprida de lã bordô, que as meninas usavam pela primeira vez na Semana Euclidiana. Somente durante a Semana. Ao chegar ao estádio, havia o juramento solene dos atletas que participariam da Olimpíada Euclidiana, seguido de uma apresentação de ginástica. Em 1946, realizou-se a VII Olimpíada . Naquele ano, o conferencista foi o poeta Guilherme de Almeida, que encantou com suas poesias oferecidas à cidade. Aquele foi também o ano do "debu cultural" de uma menina do grupo escolar. Foi neste salão durante uma palestra da Senhora Leandro Dupré. No final, a menina pediu a ela que deixasse uma mensagem no seu caderno de recordações. Sendo atendida, agradeceu polidamente: "obrigada, a senhora sabe que lá em casa também "somos seis"? A menina repetiu direitinho como a professora havia ensinado. Aquela menina era eu.

    As Semanas Euclidianas de 1948 e 1949 merecem destaque. A primeira, foi dedicada à Antropologia de " Os Sertões ". Teve como palestrantes luminares de várias universidades : Egon Shaden, Florestan Fernandes, Oswaldo Xidieh, Otávio da Costa Eduardo e Harald Shutz. O conferencista do dia 14 foi Arthur Ramos. Acompanhando a temática das conferências, os dois grupos escolares promoveram festivais de dança regional brasileira. Houve apresentações públicas de grupos folclóricos da cidade – Congada e Caiapós.

    A de 49 foi dedicada à Geografia de "Os Sertões", sendo patrocinada pelo Conselho Nacional de Geografia do Rio de Janeiro. Intelectuais de ponta vieram prestigiar o evento: Eduardo Sussekind de Mendonça, José Veríssimo da Costa Pereira, João Dias Silveira e Haroldo de Azevedo , que doou, na ocasião, um álbum de fotografias sobre a Guerra de Canudos à Casa Euclidiana. O conferencista foi Cândido Mota Filho. Na Herma, no dia 15, falou Nestor da Cunha, primo de Euclides, em nome de sua família.

    Ambas foram memoráveis no campo dos esportes. Em 48, o desempenho das meninas do Ginásio foi "estupendo ". Simplesmente arrasaram e foram gloriosas campeãs. Elogiadíssimas pela imprensa foram as vitoriosas atletas: Josefina Junqueira, Zota Zanatta, Nininha Rondinelli, Vera Rondinelli, Maria do Carmo Abichabicki, Heloísa, Gabriela, Eunice Piovesan, Coralie Ortega. Em 49, foi a vez dos rapazes do Ginásio brilharem na X Olimpíada Euclidiana. Foram heróis de partidas disputadíssimas e nervosas, com vitórias conquistadas ponto a ponto. Os adversários eram atletas dos colégios Bandeirantes, de São Paulo; Cezário Mota, de Campinas; Progresso, de Ribeirão Preto. A quadra de esportes da Associação ficou pequena para comportar tanto público que foi torcer por nossos rapazes : Richard Petrocelli, Vadinho Barbosa, Celso Maschietto, Paulinho Ferreira, Wilson Loddi, Taxinha, Ivo Bozzini, Cleber Ribeiro, Cornélio Moraes, Protógenes Guimarães. Eu estava começando o ginásio e fazia coro com a torcida, na arquibancada. Jamais podia imaginar que um dia me casaria com um daqueles "bonitões ".

    Queria saber mais um pouco sobre os anos 50 e 60 . Encontrar algum fato que lembrasse aquela época de otimismo e prosperidade. Queria saber o que acontecia nas Semanas Euclidianas dos "anos dourados", época de efervescência cultural e de reorganização política e social. Não foi difícil.

    A sociedade emergente de Rio Pardo entrou deslumbrada e deslumbrante na década de 50, embalada ao som de sambas, rumbas, boleros, jazz e fox-trot, nos inesquecíveis bailes das Semanas Euclidianas. Eles foram crescendo e se firmando, com o fim da Segunda Guerra, influenciados pela democracia liberal e pela cultura norte-americana. Os rapazes usavam cabelos glostorados, já os mais velhos preferiam um autêntico terno de linho 120 importado. As mocinhas dançavam com vestidos "godê guarda-chuva" bem rodados, confeccionados por modistas da cidade, em "algodão bangu". As senhoras preferiam um "tailleur" de fino corte, imitando um modelo Dior ou Jacques Fath. Dançava-se ao som de Dick Farney, Frank Sinatra, Xavier Cugat, Ray Coniff. Os mais belos acordes vinham da tradicional Melodia Orquestra, do saudoso maestro Caiubi Jordão. Mas há registros da Otto Wey, de Peruzzi e sua Banda, de Totó e sua Orquestra Colúmbia, da Robledo e outras mais...

    Quem não se lembra de um caso de amor, de uma paixão, doces lembranças, de um daqueles inesquecíveis bailes das Semanas Euclidianas? Quem ainda guarda aquela sensação gostosa de dançar nas nuvens, ao som do "It had to be you"?

    O Baile do dia 15 já era tradicional. Baile de gala. Traje a rigor. Longo para as mulheres. Smoking para os homens. Era a homenagem da sociedade rio-pardense ao conferencista oficial. Depois veio o Baile da Rainha dos Estudantes, no dia 12. Havia corte, súditos, minueto, coroação pelo prefeito, edito da rainha, discurso de professor. A seguir veio o Baile Branco. Sempre no dia 14. Depois foram criados mais três : o do Algodão, o da Moda e o do Xale. A semana de bailes já estava completa, resplandecente de "glamour ". Todos lembram que os rapazes, para criar coragem, bebiam um "hi-fi ‘. Tinham medo de "levar um fora ". Já as garotas, o que mais temiam era " tomar um chá de cadeira ".

    No ano de 1958, a festa de bailes entornou. Em mais de dez anos eles sufocaram a parte intelectual. É que, além dos bailes, havia desfiles de moda, concurso de modistas e de manequins. Os "euclidianos históricos ". começaram a ficar incomodados. Paschoal Artese no seu jornal desencadeou campanha cerrada contra eles. Agripino Grieco, conferencista daquele ano, ficou chocado com o que leu e ouviu. Engrossou o coro dos descontentes, emitindo um veredicto contundente : "A vida atribulada e profundamente infeliz de Euclides da Cunha tem servido de pretexto para uma gorda semana de bailes". O jornal Resenha continuou publicando, por muitos anos, artigos contra a programação das Semanas Euclidianas. Criticava a utilização de verbas para financiar bailes. Escrevia que as comemorações tinham originado "igrejinhas "entre os euclidianos, usadas para fins políticos e de empreguismo. Um missivista manifestou-se : "seis noitadas de bailes , contra umas poucas horas de atividade cultural ( ... ) é coisa de cansar as pernas e embotar o espírito . "

    Talvez por causa dessa campanha, os anos 60 foram marcados por um esforço de revitalização dos estudos euclidianos. A criação dos Ciclos de Estudos, em 1961, pelos professores Márcio José Lauria e Dermal Monfré, resolveu satisfatoriamente a questão. Foram destinadas mais horas para estudos, palestras e conferências. Os temas e os palestrantes passaram a ser escolhidos de acordo com objetivos previamente determinados e adequados a uma clientela de 2° Grau.

 

    A década de 60 foi um período de grande movimentação política. Freqüentemente as Semanas Euclidianas eram utilizadas para promover candidatos e políticos da situação. Passaram também a apresentar características de atividade turística, e outros fatos bastante interessantes. Apenas na Semana de 1963, estiveram em São José três políticos importantes : Juscelino Kubitschek, Adhemar de Barros e Aloísio Alves, do Rio Grande do Norte. Em 1966, aqui esteve o governador Laudo Natel. Juscelino, no seu discurso , afirmou que "Machado de Assis e Euclides da Cunha podiam ser classificados como pré-juscelinistas, porque defenderam idéias desenvolvimentistas". Adhemar de Barros externou sua fé na democracia, afirmando que , "para sua defesa, São Paulo contava com armas, precisava apenas de homens atrás das armas".

    Qual teria sido a intenção do governador ? Sabemos que, no ano seguinte, 1964, as armas prevaleceram, não os homens. Mas não foram as armas de Adhemar de Barros ou de São Paulo . Em 1965, ele voltou a São José do Rio Pardo, ainda como governador. Foi recebido festivamente, no dia 11 de agosto, quando foi decretado feriado municipal. Recebeu da Câmara de Vereadores o título de cidadão rio-pardense.

 

    Durante o regime militar, nota-se, com frequência, a presença de militares nos desfiles de 9 de agosto: carros de guerra, jeeps blindados, armamentos, canhões, soldados nos carros, desfilando lado a lado com os estudantes. Nas fotos, o povo estava sempre aplaudindo. Era muito comum que todo esse aparato bélico ficasse em exposição, ao lado da igreja matriz, durante toda a Semana. Também foi grande o número de apresentações de bandas militares: Banda do 8.º Batalhão, Banda dos Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro, Dragões da Independência, Esquadrilha da Fumaça.

    Com o tempo, os desfiles de abertura foram perdendo a coesão e a homogeneidade da época do Estado Novo. A antiga formação esportiva, disciplinadamente organizada, foi cedendo lugar ao espetáculo, à fantasia e à alegoria, seguindo o modelo americanizado, mais democrático e liberal. Aos poucos, foram descaracterizados: cavalos, carros de bois, motos, carretas, carros de som, coristas ao lado de estudantes, crianças e carros criativos. Também os bailes foram perdendo o brilho. O colunista social da "Gazeta", em 1966, registrou que os bailes da Semana Euclidiana estavam "uma lenha, mora". Em outra coluna, prometia-se "bola preta " aos responsáveis se houvesse aula durante a Semana. Aquele foi ano do centenário de nascimento de Euclides da Cunha e a grande dama e poetisa local, Isaura Landini, publicou o poema "Convite a Euclides".

    Hoje sabemos que o mundo passou por uma fase de prosperidade excepcional, talvez única, do fim da Segunda Guerra até o final dos anos 60. Uma observação atenta, em retrospectiva, das Semanas Euclidianas nesse período comprova que elas "nunca estiveram tão bem", acompanhando uma época de ouro e euforia que foi mundial. Esses 25 anos, com certeza, brilham mais para as pessoas que viveram antes e depois dos chamados "anos dourados".

 

    A Revista Manchete, de 28 de outubro de 1972, publicou excelente reportagem sobre Euclides da Cunha e São José do Rio Pardo. Foram onze páginas divulgando a cidade, o euclidianismo e um grupo de estudantes que representava cenas da Guerra de Canudos, no morro do Cristo. Mais uma vez, o euclidianismo promovendo a cidade.

    No entanto, os anos 70, foram marcados por festas paralelas às Semanas Euclidianas, que deram muito o que falar. Era tempo de rodeios, de música sertaneja, de requebros sensuais, de parque de diversão, sopa de cebola, e shows populares. Foram os tempos da Frapic e da Fepose. Houve muito desentendimento entre os organizadores e muito descontentamento popular. Os desfiles de abertura ficaram prejudicados e as famílias deixaram de hospedar os maratonistas, depois de meio século de colaboração. Em 1975, a Profa. Walnice Nogueira Galvão e José Míndlin sentiram-se ofendidos pelo modo como a Semana estava sendo conduzida. Enquanto isso, a Frapic reunia mais de dez mil pessoas em cada rodeio. A Fepose foi outro sucesso de bilheteira, com shows de música popular. Como interpretar ?

    O Dr. Galotti, entrevistado em 1978, do alto de sua sabedoria e diplomacia, afirmou que as Semanas Euclidianas estavam evoluindo para melhor. O que estava mudando eram os padrões e os objetivos, que seguiam as características dos tempos atuais. O que fazer para torná-las ainda melhor? Respondeu que era preciso planejamento. Não um plano para cada ano. Um plano para ser executado no mínimo em cinco anos, contando com a colaboração de elementos de diferentes áreas. Se os tempos mudaram, as Semanas também devem mudar.

    O jornal " Cidade Livre ", em 1980, fez críticas graves à organização da Semana Euclidiana daquele ano. Não houve desfile. Só uma passeata desorganizada. O conferencista do dia 9 não compareceu. Exposições inexpressivas. População indignada. A Semana Euclidiana está agonizando. Em outra reportagem : "O culto euclidiano (...) possui donos, ciumeiras, interesses, etc (...) é um patrimônio em franco e inescondível processo de liquidação (...). Desde que o Dr. Galotti deixou de estar à frente do culto euclidiano nossa cidade foi orientada por profissionais do euclidianismo (... )."

    A década de 80 foi marcada pelo traslado dos restos mortais de Euclides da Cunha e de seu filho para São José. O mausoléu foi construído e o translado foi um ato de vontade da família de Euclides da Cunha ,em reconhecimento por todos estes anos de dedicação à sua memória e ao estudo de suas obras. A cerimônia no seu conjunto, desde a saída, no Rio de Janeiro, até o sepultamento, em São José, foi das mais tocantes dos últimos tempos, em nossa cidade.

    A revista ISTO É publicou excelente reportagem sobre a disputa entre São José do Rio Pardo e Cantagalo pelos restos mortais de Euclides da Cunha. O incidente acabou unindo as duas cidades. A partir do traslado, houve maior aproximação com a família de Euclides da Cunha e São José saiu engrandecida. As relações estabelecidas com estudantes e lideranças de Canudos estreitaram ainda mais os laços do euclidianismo. A aproximação com intelectuais de renome internacional, de universidades brasileiras e estrangeiras, lançou mais luz sobre as Semanas Euclidianas e São José do Rio Pardo. Hoje, tanto quanto ontem, merecidamente, somos a "Meca do Euclidianismo".

    Participar como palestrante, debatedor, conferencista ou maratonista de uma Semana Euclidiana é honra que muitos almejam e poucos conquistam. É título que enobrece qualquer currículo. É uma experiência intelectual inestimável.

    Estas coisas estão acontecendo há 87 anos e muitas vezes nem nos damos conta. Nem percebemos que somos parte de uma experiência cultural única no mundo.

    Li, numa "Gazeta" antiga: "A Semana Euclidiana é uma glória nossa, é um apanágio nosso, é também encargo nosso (...).

    E será crime nosso- inominável deixar apagar a chama (única talvez), que nos caracteriza, distingue e nobilita: o culto

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