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CONFERÊNCIA OFICIAL

 

Conferencista: REGINA ABREU, Doutora em Antropologia Social – Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro

"COISAS BOAS P’RA PENSAR":
O Enigma de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo

Exmos Senhores

Prefeito Dr Celso Amato,
Presidente da Câmara Municipal Dr Mario Gusmão,
Senhor Diretor da Casa Euclidiana Prof Lazaro Curvelo Chaves,
Senhores Professores,
Maratonistas,
Autoridades aqui presentes,

Senhoras e senhores,

Fico muito honrada em estar aqui em São José do Rio Pardo proferindo a Conferência Oficial da Semana Euclidiana. Agradeço o convite que me foi feito pelo diretor da Casa Euclidiana, Professor Lazaro Chaves e pelo representante oficial da família de Euclides da Cunha, Joel Bicalho Tostes, concedendo-me a oportunidade não apenas de expor publicamente minhas idéias, mas também de ser a primeira mulher a proferir uma Conferência Oficial em São José do Rio Pardo.

Gostaria ainda de agradecer a todos que vêm contribuindo para minhas pesquisas sobre o euclidianismo desde o início da década de 1990, quando aqui estive pela primeira vez.

Dr. Oswaldo Galoti foi o meu primeiro guia na cidade. E que guia! Num só dia, fomos à casa do Prof. Hersílio Ângelo que relatou em minúcias a história das maratonas intelectuais. Depois, fomos à Casa Euclidiana, onde entrei em contato com algumas relíquias de Euclides e documentos do acervo euclidiano. Ainda tivemos tempo de percorrer os jornais locais, recolhendo antigos suplementos de semanas euclidianas. No caminho, Dr. Galoti ia contando histórias sobre o movimento e fornecendo pistas que eu aprofundaria mais tarde. Durante a semana, tive o privilégio de ser apresentada a alguns dos mais importantes membros do movimento: Prof. Marcio José Lauria, Prof. Rodolfo José Del Guerra, Prof. Adelino Brandão, Profa Carmen Maschietto, as simpáticas irmãs Escobar, D. Zina Gicovati e a turma da jovem guarda, Profa. Rachel Bueno da Silva, Prof. Stênio Esteter e Prof. Guilherme Garcia.

Com o tempo, fui fazendo novos amigos em São José do Rio Pardo: o Alvinho, Prof. Alvaro Ribeiro de Oliveira Neto, e sua esposa Tereza, o Benê do Museu Rio Pardense e a Marísia do Movimento Nativerde. Pessoas que fizeram com que eu me sentisse em casa todas as vezes em que estive na cidade.

Recentemente, o professor Lazaro Chaves, atual diretor da Casa Euclidiana, surpreendeu-me pela disposição quase missionária de trabalhar para a continuidade do movimento euclidiano.Encontrei no Lázaro importante interlocutor não apenas para meus propósitos acadêmicos mas, sobretudo, para minhas preocupações relativas ao ingresso da Semana Euclidiana no Terceiro Milênio que se aproxima. Estou cada vez mais consciente da importância de estarmos aparelhados para as enormes mudanças que vem ocorrendo no campo da preservação da memória. Urge transformar a Casa Euclidiana num Centro de Referências de Estudos Euclidianos adequando as instalações, informatizando e catalogando o acervo, realizando obras de infra-estrutura. E, reiterando a colocação do cineasta Noilton Nunes na abertura da Semana, é preciso também dar maior visibilidade ao movimento. É obrigação social da mídia brasileira veicular nos corações e mentes dos brasileiros um evento desta magnitude intelectual e cultural. Afinal, o movimento euclidiano há muito deixou de ser uma singela homenagem de admiradores e amigos de Euclides da Cunha. Ele é hoje um notável patrimônio cultural dos cidadãos deste país. Preservá-lo não é uma tarefa apenas dos riopardenses, mas de todos os brasileiros. Por esse motivo, como cidadã brasileira só tenho a agradecer os riopardenses por sediarem com tanta generosidade este patrimônio que é de todos nós. E, num gesto simbólico, gostaria de doar um exemplar de O Enigma de Os Sertões ao povo de São José do Rio Pardo, devolvendo o conhecimento adquirido aqui nesta cidade com a colaboração de todos vocês. Passo ao Diretor da Casa Euclidiana, Professor Lázaro Chaves, este exemplar para que fique arquivado na Biblioteca da Casa de Euclides da Cunha. E, finalizando esse momento para mim tão importante de reconhecimento público a todos os que me acompanharam nesta jornada, gostaria de fazer uma menção especialmente afetiva a algumas pessoas. Meu pai, Jorge de Abreu Filho, com quem tive o privilégio de aprender a dimensão da história e de discernir os verdadeiros patrimônios da humanidade que o tempo não dissolve. Meu amigo Joel Bicalho Tostes, sempre atencioso e gentil para comigo. Meu marido Noilton Nunes, que tem o dom da persevarança e foi quem primeiro me despertou a curiosidade sobre a vida e a obra de Euclides da Cunha. E, por fim, as duas mulheres mais importantes em minha vida, minha mãe, Regina e minha filha Nina Lys aqui presentes.

Para uma antropóloga como eu participar de um evento como este é especialmente significativo. Os antropólogos são particularmente envolvidos com o estudo de tradições. Como assinalou Roberto da Matta, enquanto os historiadores e os cientistas políticos tendem a enfatizar os processos que levam às mudanças nas sociedades, os antropólogos, pelo contrário, procuram perceber os domínios da vida social onde se fixam as permanências ou, em outras palavras, onde se manifestam as forças da tradição. Seriam os antropólogos tradicionalistas? Avessos às mudanças? Resistentes ao nascimento do novo? Não, não acredito. É justamente por refletirem sobre o momento presente, por procurarem compreender a dinâmica viva das sociedades que os antropólogos estudam as estruturas sociais que se mantêm com vigor. Pois são justamente nessas estruturas que ancoram-se os valores mais caros aos grupos sociais. E é, a partir desses domínios da vida social, que se torna possível explicitar a lógica interna de cada sociedade. Nesse sentido, uma tradição que se mantém por longos anos, sobrevivendo a toda sorte de intempéries, como é o caso da Semana Euclidiana, não faz parte do passado, mas sim do momento presente. Ela integra o que de mais vivo existe numa sociedade: os valores culturais de seu povo.

Desse modo, ao falar aqui em São José do Rio Pardo, atualizando um evento que já ocorre há 86 anos, sinto-me profundamente sintonizada com o momento presente, ao mesmo tempo em que faço das minhas palavras um elo entre o passado e o futuro integrando uma corrente entre antigas e novas gerações.

Tenho a mais absoluta convicção de que a tradição das Semanas Euclidianas sobreviveu ao longo dos anos por preservar importantes tesouros para a sociedade brasileira do porvir. Mas que tesouros são esses? Serão apenas as relíquias de um escritor que por aqui passou? Um tosco banco de madeira, uma mesa, alguns manuscritos, uma cabana? Serão tesouros apenas de ordem material?

Isso seria muito pouco... Numa época em que os avanços tecnológicos permitem tudo reproduzir, seria muito pouco pensar que centenas de estudantes, professores e intelectuais de todo o Brasil e até de outras regiões do continente se deslocam anualmente para essa pequena cidade apenas para o culto a objetos inanimados... Se assim fosse, ficaríamos satisfeitos com as imagens de todas essas relíquias reproduzidas pela fotografia ou via internet... Se assim fosse, algum comerciante local já teria enriquecido fazendo réplicas das relíquias do escritor...

Tudo leva a crer que a cidade de São José do Rio Pardo guarda algo mais do que simples objetos que pertenceram a Euclides da Cunha. E é no sentido de decifrar o significado deste tesouro que uma abordagem antropológica pode ser interessante. Tomando de empréstimo uma expressão utilizada pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss eu diria que o ritual euclidiano em São José do Rio Pardo é "uma coisa boa p’ra pensar". Gostaria de desenvolver essa idéia. Haveria no mundo invisível da cultura alguns fenômenos paradigmáticos que permitiriam revelar realidades ocultas e de difícil apreensão. A esses fenômenos, Lévi-Strauss chamou de "coisas boas pr’a pensar". Podem ser coisas no sentido material, objetos emblemáticos, evocativos. Malinowski, o fundador da Antropologia, citou por exemplo, as jóias da Coroa Britânica, carregadas de simbolismo, elos entre o passado e o futuro na construção do imaginário inglês. Mas, essas coisas a que se referiu Lévi-Strauss podem também ser coisas no sentido figurado, fenômenos sociais ou de linguagem, rituais, festas, procissões, descobertas, monumentos. E o fundamental é que tanto num caso quanto no outro, ou seja, tanto com relação aos objetos inanimados quanto com relação às coisas em sentido imagético ou figurado, "as coisas boas pr’a pensar" são aquelas em que se constrói um vínculo entre o objeto e o pensamento.

É este ponto que me parece crucial em São José do Rio Pardo. Com o movimento euclidiano, as coisas foram enriquecidas de uma outra dimensão: o pensamento. A partir de um longo trabalho de guardiãos da memória, novos valores foram agregados a simples objetos utilitários e, a partir de então, as coisas que apenas serviam para serem usadas, passaram a instigar, a inquietar, a fazer pensar. E, desse modo, ganharam uma nova dimensão, a dimensão do sagrado. Sagrado no sentido positivo do termo, no sentido dos valores de uma cultura. No sentido de patrimônio cultural.

Mas quais foram exatamente essas coisas que adquiriram uma aura, um valor sagrado? E como se deu esse processo, já que sabemos que no terreno da cultura nada vem ao acaso, tudo é o resultado da lenta elaboração dos homens através dos tempos?

Primeiro, temos os objetos mais diretamente ligados ao escritor. Curiosamente, eles não são muitos: a mesa e o banco onde Euclides se sentou para escrever. Se compararmos com cidades e museus ligados a grandes personalidades que guardam documentos, vestuário, móveis, jóias e uma infinidade de outros objetos, o quanto são singelas as relíquias do escritor! Além da mesa e do banco, temos a cabana, objeto sem qualquer valor material. Compondo o conjunto há ainda a residência onde o escritor morou com a família. Uma residência simples desprovida de grandes relíquias, a não ser alguns quadros, bustos, manuscritos e objetos doados por familiares ou remanescentes de Canudos. Por fim, temos a paisagem. A preservação da paisagem tal e qual o escritor via enquanto escrevia o seu consagrado livro! O destaque final fica para a ponte, testemunho marcante de sua passagem pela cidade.

Mas, se as relíquias são singelas em termos materiais, o mesmo não ocorre no terreno do simbólico. Nesse terreno, as coisas das quais falamos estão investidas de um valor incomensurável. O banco, a mesa e a cabana foram instrumentos de criação de um dos livros mais representativos do país. A residência foi o local que abrigou um dos escritores mais consagrados da literatura brasileira. A paisagem serviu de inspiração para a reflexão sobre um dos acontecimentos mais emblemáticos da História do Brasil.

As relíquias de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo embora singelas são detentoras de forte conteúdo evocativo, remetendo ao imaginário da criação de Os Sertões e da passagem de Euclides da Cunha por São José do Rio Pardo. Nesse sentido, as coisas a que nos referimos são a ponte para um mundo invisível, conduzindo o visitante ao imaginário da criação. Na linguagem antropológica, elas são semióforos, suportes materiais de idéias com alto poder evocativo. Certamente perderam seu valor de uso: o banco não serve mais para sentar, a mesa para escrever, ou a cabana para abrigar. Mesmo a paisagem não admite mais o olhar ingênuo e irrefletido, ela agora está marcada pelo olhar do escritor, evocando-o imediatamente. A casa já não serve mais como casa, mas como lugar de memória, lugar de arquivo e informação sobre o escritor e sua obra. Lugar onde o tempo transcorre num ritmo diverso daquele em vigor num mundo em permanente e acelerado processo de transformação. Lugar em que o trabalho do esquecimento foi bloqueado e um estado de coisas foi fixado: a passagem por São José do Rio Pardo de um jovem doublé de engenheiro e escritor que há exatamente 100 anos aqui se estabeleceu e aqui criou um dos primeiros clássicos nacionais.

Temos então uma primeira ligação entre as coisas e o pensamento: o sentido evocativo, sentido próprio da memória, a mnemosyne de que falavam os gregos. Através dos objetos que integraram o universo do escritor evoca-se e eterniza-se sua presença.

A preocupação com a permanência póstuma é um tema clássico da modernidade. No mundo moderno, o indivíduo se constitui no foco do sagrado. "O homem torna-se um Deus para o próprio homem", disse Durkheim. "O homem é facilmente levado a tomar por Deus o homem que está nele e a erigir-se em objeto de culto." No templo da Razão, a religião não foi banida, pelo contrário, ela manteve-se no culto do eu, do indivíduo singular, fragmentado do todo, mas constituindo, ele mesmo, uma totalidade. Com o avanço das filosofias racionalistas que impregnam o Ocidente moderno, observa-se a proliferação do cultivo a memórias individuais. Uma inquietação torna-se cada vez mais presente: a de que os indivíduos, soberbas riquezas tão paciente e ciosamente acumuladas, pudessem desaparecer. Entre as soluções que se entrecruzam para esse problema sinaliza-se a da imortalidade pelas obras, ligada à idéia de homem criador, que terá longa vida na tradição do artista moderno. Cada homem é visto potencialmente como um criador. Suas obras e realizações passam a significar a marca de sua passagem pela terra.

O sujeito desenvolve-se no tempo linear, acumula maior identidade, progride na Razão. É preciso assegurar que este processo seja ascendente, progressivo no sentido da mesma marcha em que deve caminhar agora toda a humanidade.

O longo processo que redundou na socialização do indivíduo relaciona-se intimamente com a invenção da memória individual. Para o culto do eu, a memória é vital. É preciso salvar do esquecimento, do esfumaçamento provocado pela morte, individualidades tão ricamente elaboradas. O sujeito busca então a eternização na memória dos outros sujeitos, guardando e arquivando testemunhos evocativos de suas obras e realizações. Desse modo, acredita-se poder superar, ao menos em parte, a tragédia da mortalidade humana. A questão da imortalidade adquire sentido plenamente laico. Pois, durante muito tempo, a memória permanecia impregnada de um sentido religioso. Atribuía-se a imortalidade não aos indivíduos, mas, sim, às almas individuais. Estas podiam sobreviver indefinidamente após a morte. Agora, não. Mais do que tudo, é o indivíduo em sua realização terrena, material que é preciso salvar. As sucessivas revoluções tecnológicas acompanham esse processo. As inúmeras possibilidades de registro, arquivamento e impressão de imagens, sons e textos ampliam-se e tornam-se cada vez mais acessíveis. As biografias, os filmes, as fotografias e os registros fonográficos desenvolvem-se na mesma proporção da multiplicação dos indivíduos.

Assim, o sentido evocativo das relíquias de Euclides da Cunha preservadas em São José do Rio Pardo desempenham essa função de lembrar o homem criador, o doublé de artista e cientista em seu momento áureo: o momento da criação. Assim, as coisas fazem pensar imediatamente no indivíduo Euclides e não é a toa que as semanas euclidianas evocam, de forma ritualizada, ano após ano, a trajetória biográfica do escritor: nos desfiles, nas maratonas, nas aulas, enfim, no conjunto das atividades da semana persegue-se nas mais sutis filigranas cada detalhe da vida de Euclides da Cunha. No contexto do individualismo moderno, as histórias de vida constituem os alicerces que estruturam os rituais de evocação. Lembrar de alguém é falar sobre ele, relatar seus feitos, discorrer sobre suas alegrias, suas angústias, seus amores, suas aquisições, suas insatisfações, suas obras acabadas e inacabadas, enfim, é evocar sua passagem na vida pela terra. O filósofo Walter Benjamin lembra que é principalmente depois da morte que o saber e a sabedoria de um homem e sobretudo sua existência vivida assumem formas transmissíveis. Uma longa tradição consolidou-se com os relatos das vidas dos santos na religião cristã. Há vários tipos de rememoração, que incluem biografias, cronologias, material iconográfico e relatos de personalidades consagradas. As biografias e cronologias dependem de um conhecimento especializado – pesquisadores dedicados a garimpar as peculiaridades sobre a vida do biografado. Nesta direção, os euclidianos são exemplares. Não há na história do pensamento social no Brasil, nada que se equipare à dedicação dos euclidianos no sentido do aprofundamento relativo à vida e à obra de um escritor.

Mas, se os objetos e as relíquias remetem ao indivíduo Euclides num culto ao homem criador, ao artista, ao intelectual, ao cientista, ao profissional bem sucedido, o poder de evocação dos singelos objetos preservados em São José do Rio Pardo não para por aí. Há alguns detalhes significativos que nos permitem ir mais longe. Os objetos não foram preservados ao acaso. Um longo processo de elaboração foi necessário para que a memória de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo viesse a ser construída. E se é certo que o lento trabalho de construção da memória deste homem exemplar encontrou nesta bucólica cidade paulista o seu santuário, não podemos perder de vista sua ligação com um movimento mais amplo. Não se trata aqui apenas do artista, do criador, do cientista, do engenheiro exemplar. Não se trata aqui de um culto a uma personalidade sui-generis ou a um gênio singular como o culto a Van Gogh que se estende por todo o Ocidente, ou o culto a genialidade de Mozart de que nos fala Norbert Elias, culto ao indivíduo que se opõe ao social, culto ao isolamento do self, da libertação de suas potencialidades criadoras. O caso de Euclides é mais complexo. E infinitamente mais rico, peculiar, original. Complexo como sua personalidade era complexa. Contraditório, mas não no sentido negativo do termo. A força de Euclides parece estar em uma solução singular que ele soube dar aos antagonismos. O escritor convivia com dúvidas, questões, incertezas sobre as teorias que imperavam em sua época, principalmente as teorias racistas e evolucionistas. Euclides foi capaz de surpreender-se com a potência da organização social dos sertanejos e mesmo sem quaisquer instrumentos teóricos, analisar a vida social daqueles a quem chamava "rudes patrícios". Euclides foi o primeiro a levantar a voz em favor de um povo simples e humilde dilacerado pela tragédia. Mas jamais usou a piedade ou a arrogância da ciência para se referir aos sertanejos de Canudos. Contrariando todos os pressupostos e lugares comuns da época foi mais longe ao pleitear para além da integração dos sertanejos à nacionalidade recém-criada, que eles constituíssem "o cerne da nacionalidade". Euclides da Cunha teve a humildade e a coragem suficientes para ousar, arriscar e sobretudo respeitar o que os seus olhos contemplavam. Em permanente estado de convulsão mental deixou-se levar pela intuição, convivendo com o que para qualquer cientista da época seria o bastante para instaurar o pânico: colocar em dúvida o arsenal teórico que nos chegava de além-mar. Essa vocação para conviver com os contrários, arriscando novas interpretações, não se furtando aos questionamentos, às dúvidas, às incertezas e até, muitas vezes, às hesitações e inseguranças talvez tenham sido as suas maiores qualidades. Porque foi este olhar ao mesmo distanciado e afetivamente envolvido, porque foi o esforço disciplinado do cientista aliado à abertura para o novo e o imponderável as marcas registradas do escritor. E foi esta disposição para enfrentar os contrários ainda que isto lhe custasse dias de extrema instabilidade emocional que abriu caminho para o grande livro que é Os Sertões.

Então, retomando o tema da relação entre coisas e pensamentos, é preciso assinalar um novo sentido para as relíquias preservadas em São José do Rio Pardo. Se num primeiro momento elas servem para evocar o indivíduo criador, num segundo momento percebemos que esse indivíduo está longe dos modelos individualizados produzidos na história do Ocidente. Esse indivíduo não se opõe ao social. Em sua propensão a conciliar tendências opostas, a evocação de Euclides desempenha uma função dupla: a de nos colocar no plano do individual, do artista criador e ao mesmo tempo no plano do social, do coletivo de indivíduos e do indivíduo coletivo que a nação representa. Evocar Euclides é também evocar a nação brasileira. E, de novo passemos às relíquias, às coisas que fazem o elo com o pensamento. Façamos uma viagem mental até a cabana: lá está a bandeira brasileira a sinalizar que a evocação de Euclides é indissociável da evocação do Brasil. Assim, os objetos preservados em São José do Rio Pardo fazem parte sim da preservação da memória de um indivíduo singular, mas sobretudo fazem parte da construção permanente da memória nacional.

É nesse duplo aspecto que se constitui a potência do culto. De um lado, referência individualizada, e não são poucos os exemplos que fazem de Euclides referência singular no processo de construção de nossas próprias subjetividades: o caráter, a defesa dos ideais do talento e do mérito por oposição à sociedade de corte que imperava em seu tempo, a ousadia, a busca obstinada pelo conhecimento. De outro lado, referência coletiva. Euclides da Cunha é indissociável de sua grande obra, Os Sertões. E essa grande obra ultrapassa a condição estritamente literária. Estamos diante de um monumento, uma pedra fundamental em nossa cultura. Ao ser transformada em monumento, símbolo nacional ou "lugar de memória", essa obra literária extrapolou suas características iniciais, desempenhando funções sociais que ultrapassaram seu valor puramente literário. Como ocorre com um bem tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a consagração de Os Sertões, iniciada em 1902, teve o mesmo efeito de um tombamento. A partir de então, o livro de Euclides da Cunha adquiriu significação eminentemente simbólica, ingressando na esfera do sagrado. Imprescindível para se conhecer o Brasil, ele se tornou uma Bíblia da Nacionalidade.

Cabe então indagar: mas de que modo e por quais motivos um escritor e seu livro foram pouco a pouco ocupando lugar de destaque não apenas no terreno dos símbolos nacionais, mas também e de forma avassaladora no campo da memória? E de que forma a cidade de São José do Rio Pardo, e não outra cidade qualquer do país, veio a desempenhar o papel de meca do euclidianismo?

Aqui ingressamos no terreno da história. É possível reconstruir o longo percurso de construção da memória euclidiana. Euclides efetivamente morreu consagrado como um dos maiores escritores do país. Entretanto, foi ao longo do tempo, em meticuloso trabalho de construção póstuma, que ele se tornou a grande singularidade reverenciada ainda em nossos dias. Com sua morte trágica em 1909, sua obra adquiriu novo significado e passou a ser lida junto com as biografias, que, ano após ano, apresentavam fatos inéditos sobre sua trajetória. A figura do escritor foi construída passo a passo, tornando-se lendária e objeto do maior culto de que já se teve notícia sobre um escritor brasileiro. Seguindo os passos da construção póstuma da memória do escritor, podemos perceber de que modo, para que segmentos e em função de que objetivos Euclides da Cunha constituiu-se em notória singularidade, objeto de profissão de fé.

PRIMEIRO PASSO: AS PRIMEIRAS NARRATIVAS BIOGRÁFICAS

O primeiro passo ocorreu no dia 16 de janeiro de 1909. Noticiando a morte do escritor ocorrida no dia anterior, a imprensa deu início ao processo de construção da memória póstuma. Os jornais mais importantes do país, como O Estado de São Paulo, Jornal do Commercio, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, aproveitaram a ocasião para tecer os primeiros esboços biográficos.

Os jornais louvavam sua competência, sua honestidade, seu profissionalismo, seu talento, seu caráter e suas qualidades artísticas e intelectuais. Características incomuns eram atribuídas ao escritor na intenção de divinizá-lo. Um dos traços do personagem descrito era a conjugação de muitas qualidades, como ser um "homem de letras" ao mesmo tempo que "um patriota" e "um cientista". Citando a confiança que nele depositou o Barão do Rio Branco para cuidar da "complicada questão de limites com o Perú e a Bolívia", o jornal O Estado de São Paulo frisava ainda uma vez o "heroísmo" e a "abnegação" do escritor, que, já laureado, partiu em expedição para os confins da Amazônia. Comparado a Ulisses, ele realizara uma "verdadeira Odisséia, da qual triunfaram o patriotismo, o brio e a tenacidade do grande brasileiro".

A conclusão dos jornais era a de que se tratava de uma "vida exemplar". Naquela ocasião, as narrativas de "vidas exemplares" constituíam um gênero muito difundido. Além das histórias das vidas dos santos divulgadas pela Igreja Católica, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro encarregava-se de produzir histórias dos heróis nacionais. O próprio Euclides para ingressar nesse instituto foi incumbido da tarefa de produzir uma biografia do Duque de Caxias. A Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro continha uma sessão dedicada às narrativas biográficas, destinadas a fornecerem exemplos às futuras gerações. A Academia Brasileira de Letras também contribuía para o desenvolvimento do gênero das narrativas de histórias exemplares, exigindo que os novos membros tecessem estudos sobre os patronos e o antigo membro da cadeira a ser ocupada.

Mas no caso de Euclides surge um dado novo. Pela primeira vez no Brasil um escritor passaria a ser cultuado como herói nacional. Se outros escritores tiveram suas vidas vasculhadas após a morte, como Artur Azevedo e Machado de Assis, falecidos menos de um ano antes, é com Euclides da Cunha que tem início o culto do escritor como mártir nacional, um culto organizado e de longa duração. Se os funerais de Vitor Hugo, em 1885, assinalaram na França a entronização dos escritores no panteão dos grandes homens da nação, no Brasil, foram os funerais de Euclides da Cunha que marcaram o culto a um escritor não apenas como grande homem, mas como herói nacional. Desde o início, as narrativas biográficas buscaram acentuar esse caráter heróico, repetindo enfaticamente os grandes feitos de Euclides: a defesa dos ideais republicanos na Escola Militar; a viagem para os sertões inóspitos, buscando o contato com os "bárbaros" sertanejos e as terras desérticas; a expedição à Amazônia, aceitando a importante missão de atuar na delimitação das fronteiras do Brasil com o Peru e a Bolívia. O herói que, mesmo laureado pelos grandes feitos, recusou em vida o repouso, almejando a vida bárbara, sem conforto, atendendo ao chamado interno de servir a causa da nação.

A construção da figura do mártir é especialmente elaborada nos relatos que seguiram à sua morte. Entre os temas retomados, estavam a tragicidade de sua infância marcada pela orfandade, o permanente sentimento de incompreensão que o teria acompanhado desde menino, a falta de afeto e de família que o tivesse acolhido, o que o transformou em indivíduo ensimesmado e voltado para seu "eu interior", a incompreensão na Escola Militar seguida da incompreensão no casamento, tudo isso associado à sua visão mais avançada, sua inteligência extraordinária, sua adesão ao que havia de mais moderno no pensamento científico da época. Euclides teria se colocado como um missionário da nacionalidade, o que complexificava o tema do martírio, trazendo o sentimento de culpa nacional por sua morte, evidenciado nos relatos dos jornais da época. Sua dedicação à causa da nação teria levado a que ele se descuidasse de tarefas domésticas e até de si mesmo para seguir por viagens e expedições para o interior do território. Os outros não tiveram a mesma dedicação para com ele, a começar por sua esposa, que o teria traído. O tema da traição era expandido. De certo modo, escritores, intelectuais, políticos, enfim, todos se sentiam um pouco traidores, por não terem concedido ao grande gênio as condições de que ele necessitava para levar a bom termo seus projetos de construção da nação. Dedicara toda a sua vida a um coletivo que o ultrapassava. A nação não teria sabido recompensá-lo, sendo co-responsável pela tragédia. Os jornais faziam referência à saúde precária do escritor, nervoso ultimamente, e atacado também pela tuberculose, que herdara da mãe. Com o passar do tempo, as biografias tenderiam cada vez mais a identificar essa nação culpada com a figura da esposa de Euclides. Ana representava a nação republicana. Euclides havia sido duplamente traído. Construindo a figura do mártir, o culto a Euclides da Cunha seria tentativa de redimir essa grande culpa.

SEGUNDO PASSO: O RITUAL DO ENTERRO

Ainda nesse primeiro momento de construção da memória póstuma do escritor, um evento bastante expressivo foi o ritual do enterro, amplamente noticiado pelos jornais. Ao lado das narrativas jornalísticas que teciam suas histórias de vida, as descrições do ritual do enterro permitem descortinar uma série de detalhes importantes para a lapidação da imagem póstuma de Euclides. Particularmente expressivo foi o discurso de Coelho Neto, um de seus amigos mais íntimos. Neste discurso estavam contidas algumas das idéias-chave que relacionariam Euclides da Cunha com um projeto de nação que enfatizava a idéia de território, de virada para o interior. Coelho Neto fazia referência ao "homem do interior" que foi Euclides, "o sertanejo", voltado não apenas para o "Brasil periférico", mas principalmente para o "Brasil dos sertões". Dizia Coelho Neto: "Esse que desapareceu corporalmente do nosso convívio (...) foi um forte escritor e um dos mais robustos representantes da literatura da língua portuguesa porque no próprio berço da língua, não há quem se lhe compare em vigor e pureza verbal. (...) Não quis entrar perifericamente na nossa Pátria; abalou-se aos sertões." E, comparando Euclides da Cunha a Alexander Von Humboldt, elogiava a "descrição palpitante e viva" da "nossa natureza", das "nossas terras interiores". Coelho Neto fazia referência ao fato de que Euclides era também um homem do interior do Estado do Rio de Janeiro para designá-lo por "sertanejo" ou "homem do interior". Atribuía em grande parte ao fato de Euclides ser "filho do interior" a sensibilidade de compreender e expressar a vida e a natureza dos sertões. A analogia com Humboldt era altamente significativa nesse momento. Euclides era definido como o "Humboldt brasileiro", o homem que deu as costas para o Atlântico e embrenhou-se no interior, dando vida às florestas, aos rios, a uma natureza original, pioneiro na descrição da natureza tropical, nomeando e classificando com o instrumental científico à sua disposição as espécies que encontrou pelo caminho.

TERCEIRO PASSO: "POR PROTESTO E ADORAÇÃO" (1911)

Os jornais continuaram durante muito tempo a referir-se à "Tragédia da Piedade", acompanhando a formação do processo e o julgamento do principal acusado pela morte de Euclides: Dilermando de Assis. No ano de 1911, ocorreu o inesperado. Contrariando as expectativas dos admiradores do escritor que, de maneira incansável, acorriam à imprensa exigindo a condenação do réu, ele foi absolvido, sob a alegação da tese da "legítima defesa". A reação à absolvição de Dilermando foi sem precedentes. No aniversário de morte do escritor, seus amigos e admiradores decidiram iniciar um movimento "por protesto" contra a absolvição de Dilermando e "por adoração" a Euclides da Cunha. Reunidos no Cemitério São João Batista diante do túmulo do escritor, fizeram o juramento de levar adiante sua palavra. Entre os iniciadores do movimento estavam o escritor amazonense Alberto Rangel e o maranhense Coelho Neto. Na mesma época foi criado o Grêmio Euclides da Cunha, que funciona até hoje, com o objetivo de estudar e divulgar a obra do escritor. Nasciam os "euclidianos" ou "euclidianistas", grupo de amigos e admiradores fiéis que passaram a se reunir nos aniversários de nascimento e morte do escritor e em datas comemorativas para marcar o protesto e cultuar o escritor que tanto admiravam. Um ritual foi-se formando. Desde as primeiras celebrações até os dias atuais, configurou-se como um dos pontos altos o discurso à beira do túmulo, relembrando os feitos notáveis do herói e do mártir, incompreendido na vida e na morte. Entre os primeiros oradores destacaram-se Coelho Neto e Alberto Rangel.

QUARTO PASSO: "PLANO DE CAMPANHA" (1917) – ÊNFASE NA OBRA

Às narrativas biográficas, ao ritual do enterro, ao movimento "Por protesto e adoração", um fato novo viria fortalecer a construção da memória póstuma de Euclides da Cunha: em 1917, durante a visita ao túmulo do escritor, o euclidiano Edgar de Mendonça lançou um "Plano de Campanha". Nele, foram discutidos os objetivos do movimento euclidiano. Edgar de Mendonça propunha que o movimento entrasse numa nova fase, de difusão da palavra do escritor. Os membros do Grêmio incumbiram-se pela primeira vez de realizar conferências sobre a obra euclidiana com a participação de Roquette-Pinto, Basílio de Magalhães, Pacheco Leão, Escragnolle Dória, Juliano Moreira, Coelho Neto e Ignácio do Amaral. Reunia-se assim os relatos sobre a vida de Euclides com uma reflexão sobre sua obra. Os euclidianos pretendiam reunir as conferências num livro para ser divulgado por todo o Brasil. Além disso, propunham-se trabalhar através do Grêmio na redação de uma biografia e na difusão da obra de Euclides em estudos críticos divididos por áreas. A "vertente naturalista" ficaria a cargo de Roquette-Pinto; a "vertente dos estudos amazônicos" seria uma tarefa de Pacheco Leão; a "vertente histórica" seria confiada a Ignácio do Amaral; as vertentes geográfica, filosófica, da originalidade estilística, de crítica literária, da engenharia, das expedições, da cartografia e da arte ficariam com Basílio de Magalhães. Por fim, os traços psicológicos de Euclides seriam analisados por Juliano Moreira, que deveria "explicar a razão dessa obra excepcional, descrevendo, ao impulso das verdades científicas, a genialidade que a gerou".

Fazia ainda parte da campanha a intenção de erigir um monumento em bronze com a figura do escritor no Morro da Babilônia, na Praia Vermelha, onde ficava a Escola Militar, "cenário do primeiro gesto expressivo da série de gestos irmãos que ele havia de fazer na vida".

Com este "Plano de Campanha" estava traçado o destino da perenidade de Euclides da Cunha. Incansáveis, os euclidianos iniciaram um meticuloso trabalho de levantamento de fontes, reunião de cartas, documentos e relíquias do escritor. Imbuídos da missão de manter viva a chama euclidiana, esses intelectuais passaram a agir como verdadeiros sacerdotes divulgando a palavra do mestre. Nunca antes, no país, a memória de um escritor teve tantas pessoas a seu serviço.

QUINTO PASSO: A SALA EUCLIDES DA CUNHA NO MUSEU NACIONAL (1917)

Outro passo para a construção da memória póstuma do escritor foi a criação da Sala Euclides da Cunha, no Museu Nacional, ao lado da Sala Humboldt. A identidade entre os dois naturalistas, Euclides e Humboldt, foi reforçada por iniciativa do pesquisador Edgar Roquette-Pinto. A sala, inaugurada em 1917, integrava a Seção de Etnografia Sertaneja, representando para os euclidianos a "consagração científica" póstuma do escritor. A iniciativa de Roquette-Pinto revelava dois aspectos importantes: primeiramente, Euclides era entronizado no panteão do naturalismo, ao lado de Humboldt. Em 1917, o naturalismo dominava ainda no campo científico, e o Museu Nacional era uma instituição prestigiada. A Sala Euclides da Cunha teve importante significado de glorificação científica de Euclides. O segundo aspecto diz respeito à apropriação que o antropólogo do Museu Nacional fez de Euclides para levar adiante o combate às teorias da desigualdade racial que tanto impregnaram os intelectuais brasileiros na virada do século. Com Roquette-Pinto, o Museu Nacional começou a aglutinar uma vanguarda intelectual que se opunha ao racismo científico, moeda corrente em períodos anteriores. A evocação do nome de Euclides servia assim ao exercício da tolerância e da conciliação do país com a diversidade e a diferença.

SEXTO PASSO: A ADESÃO DE SÃO PAULO AO MOVIMENTO EUCLIDIANO

Em 1918, o movimento ganhou novos e importantes adeptos vindos de São Paulo. Com o intuito de difundir a palavra de Euclides, alguns membros do Grêmio dirigiram-se a São Paulo e, no dia 11 de abril, no salão nobre do Conservatório Dramático de São Paulo, Roquette-Pinto realizou a conferência "Euclides da Cunha naturalista". Motivados pela conferência, diversos intelectuais aderiram ao movimento euclidiano e decidiram na ocasião proclamar as duas cidades, Rio de Janeiro e São Paulo, "cidades-irmãs no culto ao escritor".

Paralelamente ao movimento euclidiano do Rio e São Paulo, em São José do Rio Pardo, desde 1912, amigos e admiradores do escritor trabalhavam para a preservação de sua memória. Em artigo de 1918, Francisco Venâncio Filho elogiava a devoção rara encontrada entre os rio-pardenses na cidade onde Euclides escrevera Os Sertões. Relatava as homenagens que anualmente eram prestadas ao escritor naquela cidade, destacando a preservação da cabana onde Euclides escreveu sua obra. Na cabana, havia sido colocada sua mesa de trabalho, doada pelo Dr. Jovino de Sylos. E naquele mesmo ano de 1918, havia sido inaugurada uma herma em bronze, rememorando a passagem do escritor por São José do Rio Pardo.

O trabalho do euclidianismo foi crescendo ao longo do tempo incluindo publicações de artigos, ensaios, re-edições de Os Sertões e até obras de maior vulto como a edição das obras completas do escritor. O objetivo era não apenas atingir o público erudito, mas fundamentalmente formar novas gerações.

SÉTIMO PASSO: SÃO JOSÉ DO RIO PARDO TRANSFORMA-SE NA MECA DO EUCLIDIANISMO

Aos poucos, São José do Rio Pardo foi se transformando na meca do euclidianismo. O trabalho de preservação de objetos ligados ao escritor foi fundamental para que a cidade viesse a exercer esse papel. Retomando o fio inicial da nossa conversa, em São José do Rio Pardo, as relíquias de Euclides embora singelas foram decisivas para lembrar Euclides e fazer pensar.

A meca do escritor foi sendo esculpida aos poucos. O primeiro trabalho para o cultivo de sua memória consistiu em limpar a área ao redor da cabana que, em situação de abandono, havia sido ocupada por um matadouro próximo. Na cabana, foi instalada a mesa onde Euclides escreveu e o banco de madeira onde ele se sentou para escrever. Os guardiãos da memória euclidiana procuraram resgatar o clima sagrado da criação, preservando cada detalhe do entorno. A velha paineira sob cuja sombra Euclides, em outros tempos, descansava, e que aos poucos morreu, foi substituída por outra, semelhante.

Desse modo, a cidade foi magicizada, adquirindo nova significação no cenário nacional. Com a edificação de um santuário em homenagem perene a um grande escritor nacional, São José do Rio Pardo adquiriu feição incomum: a paisagem bucólica da cabana à beira do Rio Pardo passava a indicar que fora ali, e não em qualquer outro lugar do Brasil, que Euclides da Cunha escreveu Os Sertões. E Os Sertões era o grande livro nacional. Como assinalou Roquette-Pinto, se Portugal tinha Camões e Os Lusíadas, se a Espanha tinha Cervantes e Dom Quixote, o Brasil tinha Euclides da Cunha e Os Sertões.

Como numa fotografia, São José do Rio Pardo estancou o movimento do tempo e salvou do esquecimento para todos os brasileiros o momento de criação de Os Sertões. A possibiilidade de revisitar anualmente este "grande momento" da história do Brasil é útil também para refletir sobre a sociedade brasileira. Ao preservar os objetos ligados ao momento inaugural de uma grande obra nacional, a cidade de São José do Rio Pardo propiciou aos brasileiros as chaves para o ingresso num tempo mítico, diverso do tempo histórico. No tempo mítico, um fato pode ser repetido milhares de vezes, porque ele não interessa como causador de outros, como mera informação, mas interessa o fato nele mesmo, como experiência no sentido atribuído pelo filósofo Walter Benjamin. Revisitar o lugar de criação deste livro seminal para a nação brasileira significa reviver no plano mítico esse ato inaugural não apenas pertinente ao indivíduo criador, mas a toda comunidade nacional. É como se participássemos de algum modo deste momento de criação.

Em São José do Rio Pardo, a festa significa a suspensão temporária do cotidiano ou do ritmo normal da vida da população. Do mesmo modo, lendo silenciosamente ou revisitando esse "momento inaugural", somos induzidos a romper temporariamente com o tempo da informação para mergulhar num espaço de experiências. A criação do primeiro "clássico nacional", de maneira diferente das informações que no cotidiano são friamente transmitidas pelos mais diversos meios de comunicação, tem sentido peculiar, pois faz parte dos acontecimentos-chave que criam e singularizam a sociedade brasileira. Os Sertões superou a si próprio na medida em que deixou de ser apenas um livro como os outros, para se transformar em monumento. E os monumentos fazem parte do sagrado em uma cultura.

Hoje, fazem 100 anos que um ainda jovem Euclides da Cunha, triste e alquebrado pelos horrores da tragédia de Canudos veio dar com esta pacata cidade. Euclides não esperava mais nada. Apenas cumprir o seu ofício de engenheiro de obras públicas e reconstruir uma velha ponte que havia ruído. Trouxe a família. A esposa Ana, os filhos Quidinho e Solon e na barriga de Ana, o caçula, Manoel Afonso. Euclides não esperava mais nada. O que poderia esperar, depois de presenciar aquela luta fratricida, aquele crime da nacionalidade? Mas, foi aqui, em São José do Rio Pardo, que Euclides encontrou o ambiente propício para a reconciliação consigo mesmo. A cidade, generosa, abrigou sua esposa, abrigou seus filhos, abrigou seu corpo fatigado e descrente. A cidade, generosa, lhe trouxe Francisco Escobar e muitos outros amigos. Foi aqui, e em nenhum outro lugar do planeta, que Euclides pode, novamente, acreditar num sonho que lhe guiava por toda a vida, mas que andava meio estremecido. O sonho da humanidade, da universalidade, da ciência posta ao serviço do homem, da paz, do progresso, da civilização e da diversidade cultural. Porque só um homem reconciliado consigo mesmo poderia escrever Os Sertões. Parabéns, São José do Rio Pardo!

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