Extraído de: Abdala Jr, Benjamin & Alexandre, Isabel, orgs. Canudos Palavra de Deus Povo da Terra. São Paulo, Editora Senac São Paulo, Boitempo Editorial, 1997. p. 103-155.


CARTAS DE EUCLIDES NO ANO DA GUERRA

Walnice Nogueira Galvão

(Professora Titular de Teoria Literária da Universidade de São Paulo)

O papel de Euclides da Cunha na construção da memória da Guerra de Canudos é fundador. Seu livro, Os sertões (1902), fez por uma insurreição popular o que nenhum outro foi capaz de fazer, no país: alçou-a a tragédia paradigmática, mediante o louvor à coragem do vencido.

Bem menos divulgada, mas de extraordinária relevância enquanto embrião do livro, é a série de reportagens que Euclides escreveu como correspondente de guerra do jornal A Província (hoje O Estado) de S. Paulo. Enviado ao palco dos acontecimentos, foi de lá mandando correspondência e telegramas que iam sendo publicados no jornal. A série só foi editada pela primeira vez em livro em 1939, com o título Canudos - Diário de uma expedição.

Entretanto, no ano da guerra - 1897 - Euclides também escreveu cartas pessoais, e é delas que se tratará mais detidamente a seguir.

Das cartas de Euclides da Cunha 1, observa-se que poucas restam do período anterior à notoriedade trazida pela publicação de Os sertões, em 1902 - exceto aquelas dirigidas a Reinaldo Porchat, futuro primeiro reitor da Universidade de São Paulo (USP). Não fosse essa numerosa coleção. até há pouco inédita 2, pouco se saberia, de mão própria, dessa fase da vida do escritor.

O destaque adquirido por Euclides, a partir do fim de 1902, data de cinco anos após o término da Guerra de Canudos, em outubro de 1897. Daí para a frente, intensifica-se de maneira visível o volume da correspondência ativa, ciosamente guardada pelos destinatários.

Mesmo assim. interveio uma vontade de preservação, como aquela, exemplar, demonstrada por Reinaldo Porchat e seus descendentes.

A amizade entre Euclides e Reinaldo Porchat (1868-1953) nasceu no círculo de convivência do jornal A Província de S. Paulo, suscitada pela figura de Júlio de Mesquita, a essa época baluarte do republicanismo. Reinaldo Porchat, que se tornaria um bom amigo e fiel correspondente, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1891 e foi como Euclides, militante republicano. Mais tarde, será catedrático de Direito Romano a partir de 1903 e diretor da mesma escola em 1930 e 1931, bem como senador estadual de 1923 a 1925, antes de se tornar o primeiro reitor da USP em 1934. Já integrava esse círculo quando Euclides, que vivia no Rio de Janeiro, veio residir por um ano, o de 1889, em São Paulo. A essa altura, Euclides, que estudava na Escola Militar, foco de agitação antimonarquista, praticara um gesto de rebeldia que dera o que falar. Quando Tomas Coelho, ministro da Guerra e portanto representando a autoridade imperial, passava em revista as tropas perfiladas no recinto da escola, à voz de apresentar armas o então cadete atirou seu sabre ao chão. Preso e depois expulso da escola, Euclides muda-se para São Paulo, onde o grupo do periódico, de cujas idéias partilhava, o acolhe com fervor. O destino do escritor não mais se desvencilhará de O Estado de S. Paulo, no qual passará o ano todo publicando ferventes artigos de propaganda republicana. Esse é o episódio que, por vias transversas, está na raiz da camaradagem duradoura entre ambos: a última carta a Reinaldo Porchat precede de pouco a morte do escritor.

Com esse lote de correspondência, Reinaldo Porchat passa a ocupar o posto de segundo maior destinatário de Euclides. E só perde para o imbatível Francisco de Escobar, influente advogado e político mineiro, intendente de São José do Rio Pardo à época em que Euclides lá viveu e trabalhou como engenheiro da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo. escalado para reconstruir a ponte sobre o rio Pardo, que uma enchente levara de roldão Escobar, futuro prefeito de Poços de Caldas, era homem culto ("doutíssimo e eruditíssimo", dele disse Coelho Neto) possuidor de notável biblioteca, e tornou-se o interlocutor assíduo de Euclides no período tormentoso de redação de Os sertões, naquela cidade. Posição que manteve pelos anos afora, em incessante troca epistolar - mas ambos só travariam conhecimento após o ano de 1897, que aqui nos ocupa.

Mais um missivista avulta nessa fase. Trata-se de João Luís Alves, a quem Euclides se ligou quando foi morar em Campanha, Minas Gerais (1894), após ter retornado de São Paulo ao Rio com o advento da República. Designado para a Diretoria de Obras Militares na cidade mineira, consta que a transferência teria encoberto uma punição. Nesse ano de 1894, o sogro de Euclides, general Solon Ribeiro, membro do grupo de militares que conspirara para proclamar a República, sofreu pena semelhante imposta pelo Governo. Sem mencionar seu próprio caso, Euclides envia lhe uma carta, a 6 de junho, já de Campanha, manifestando seu repúdio à remoção do sogro para Mato Grosso, lugar que tem "a função lamentável de prestar-se a todos os exílios disfarçados e hipócritas". Ainda oficial do Exército - do qual viria a reformar-se aos trinta anos - e vivendo no Rio, Euclides caíra em desgraça por ter protestado publicamente contra o alvitre de executar-se sumariamente os presos da Revolta da Armada, sendo enviado no mês seguinte para a distante Campanha. Lá chegando, fez vários amigos, com quem se correspondeu após ter-se mudado dali. O mais constante dentre eles foi, justamente, João Luís Alves (1870-1925), advogado mineiro que se encaminharia para a política, tornando-se sucessivamente deputado, senador, ministro da Justiça e do Supremo Tribunal.

As relações entre ambos só foram definitivamente cortadas pela morte de Euclides. Disso é prova a última carta que este Lhe endereçou, a cerca de dois meses de seu fim. Datada de 10 de junho de 1909, são termos de seu fecho: "Recado do velho amigo Euclides". Mais explícita ainda é a saudação final da penúltima, de 15 de novembro de 1907: ... abraço-te com todo o carinho de nossa velha amizade".

Tentando remendar os retalhos de 1897, destacam-se três cartas a João Luís Alves nesse ano, remetidas de São Paulo, todas contendo alusões a Canudos. Em linhas gerais, expõem a idéia inteiramente negativa que Euclides abrigava a propósito do levante, corroborada por outras que examinaremos adiante e da qual Os sertões viriam a ser o portentoso desmentido.

A primeira é escrita a 14 de março de 1897, ainda sob o impacto da debandada da Expedição Moreira César, ou terceira expedição, ocorrida dias antes. Nessa data saíra publicado em O Estado de S. Paulo o primeiro dos dois artigos intitulados "A nossa Vendéia", depois título provisório do futuro livro, que tecem comentários sobre o episódio. O missivista menciona o episódio mas não seu artigo:

São Paulo, 14 de março de 1897.
João Luís
Saúde e felicidades. Desejamos eu e a Saninha que você, a D. Fernandina e toda a família estejam de perfeita saúde e felizes.
Apesar de um longo silêncio de que não sou culpado porque fui o último a escrever-te, lá vai esta carta dizer-te que não me esqueço do digno correligionário e amigo. Além disto, nesta aterradora quadra de desastres é necessário que procuremos os irmãos de crença, os únicos que nos podem compreender. Creio que como eu estás ainda sob a pressão do deplorável revés de Canudos aonde a nossa República tão heróica e tão forte curvou a cerviz ante uma horda desordenada de fanáticos maltrapilhos. . .
Que imensa, que dolorosa, que profunda e que esmagadora vergonha, meu caro João Luís!
O nosso belo ideal político - estes fatos o dizem eloqüentemente - continua assim sacrificado pelos políticos tontos e egoístas que nos governam.
O que diz de tudo isto o nosso incorruptível e sincero correligionário, o Dr. Brandão? Eu imagino se não o desalento profundo a tristeza enorme que o assalta.
Felizmente a geração heróica de 15 de novembro está ainda robusta e, ao que parece, pouco disposta a deixar que extingam a sua mais bela criação.
Procurando ser otimista (difícil coisa nestes tempos maus!) vejo nesta situação dolorosa um meio eficaz para ser provada a fé republicana. Não achas que ela resistirá brilhantemente - emergindo amanhã, rediviva dentre um espantoso acervo de perigos? Eu creio sinceramente que sim.
Adeus. Dê por mim um abraço em nossos amigos Dr. Brandão e Bernardo Veiga; um aperto de mão em todos os correligionários - e dispõe de quem é com estima real
Amigo Admirador
Euclides da Cunha
Rua Santa Isabel, 2
[à margem] Quando vens cá?

Escrevendo-lhe de novo Euclides duas semanas depois, a 1° de abril, depreende-se que nesse ínterim João Luís Alves lhe respondera, comentando o tópico e em concordância de opinião:

São Paulo, 1 de abril de 1897.
João Luís
Desejo-te saúde e felicidade - assim como a toda a família.
Recebi a tua carta e respondo-a prontamente - exemplo digno de ser seguido. É escusado dizer, considerando o assunto capital de que tratas - que estamos afinados pelo mesmo diapasão.
Compreendo a situação como a compreendes e alentam-me as mesmas esperanças.
Entretanto assalta-me profunda tristeza: é ver sobre a débaclê material de tudo neste país, a débaclê gravíssima de coisas que em geral se conservam intactas no meio das maiores catástrofes. O que me impressiona não são as derrotas - são as derrotas sem combate - em que o chão fica vazio de mortos e o exército se transforma num bando de fugidos!
Nunca supus que fôssemos passíveis de desastres desta ordem! NUNCA!
Será possível que a nossa República tenha quadros de tal ordem, que lembram os últimos dias do Baixo Império? Descrente destas coisas, descrente desta terra - aonde lamento ter nascido - eu creio entretanto na vitalidade de um princípio. A República é imortal, e já que temos a felicidade de possuí-la, eu acredito que ela afinal galvanizará este povo agonizante e deprimido.
Aquele lamento acima escrito, não acredites seja apenas uma expressão sentimental - é um produto consciente, exprime realmente a mágoa mais profunda que tenho. Acho, realmente, ridículo o título de filho desta terra depois da vasta série de escândalos de toda sorte com que ela tem desmoralizado a História!
Não digas isto ao Dr. Brandão - não desejo que ele saiba que me invadiu este depauperante pessimismo. Que tenham ao menos esperanças os velhos-moços conforme dizes bem, já que os moços envelheceram cedo, atravessando a Selva oscura das nossas grandes misérias. Vou encerrar esta carta que está assumindo aspecto demasiado lúgubre. Para outra vez conversaremos mais longamente. Responda-me logo para a Rua Santa Isabel n° 2, aonde ainda estou.
A minha família recomenda-te à tua.
Abraça-te o amigo
Euclides da Cunha

A carta seguinte, de 23 de julho, é escrita uma semana depois de publicada a segunda parte de "A nossa Vendéia", a 17 de julho. Nela Euclides indaga do amigo se tem lido seus artigos

São Paulo, 23 de julho de 1897.
João Luís
Saúdo-te desejando felicidades recomenda-nos a toda a família.
Aconteceu afinal o que eu previa: os amigos da Campanha esqueceram o ausente. É singular porém que eu não me esqueça deles e no meio de uma terra mais agitada me recorde sempre.
Por que então esse silêncio?
O próprio Chico de Lemos, o último que com uma constância heróica sustentou uma correspondência regular - emudeceu bruscamente... Qual foi o desalmado que conspirou aí contra mim? Dirás - ninguém; eu digo - o tempo - apagando as afeições mais sólidas.
Aí vai talvez a minha última carta para a Campanha; digo, talvez, porque ainda creio, não estou de todo cético, ainda creio que me responderá.
Eu vou indo bem; a família boa; os filhinhos bons. Continuo abraçado à minha engenharia e nas horas vagas - como a vida é difícil e é preciso repartir a atividade, escrevo no Estado que não quer aceitar a minha colaboração gratuitamente. Não sei se tens lido os artigos meus, alguns assinados, outros não, mas fáceis de serem percebidos.
Não quero referir-me a assuntos políticos: não te quero assombrar com a minha tristeza imensa e amarga ironia com que encaro aos maltre-chanteurs que nos governam. Felizmente a República é imortal! Resistirá quand même, a despeito de tudo (Escaparam-me dois francesismos detestáveis, desculpa-me).
Dê um abraço no Dr. Brandão que não me escreve, que não me escreverá talvez - o que não impede que o seu nome seja sempre pronunciado em minha casa com a mais respeitosa gratidão. Saudades ao comendador Bernardo, muitas saudades.
Recomende-nos a todos e acredite sempre no
Amigo
Euclides da Cunha
Rua Santa Isabel n° 2
[à margem] A Campanha vai ter um bispo... Parabéns??

Decorre menos de um mês - e já damos com o escritor na Bahia, como correspondente de guerra do jornal de sempre. Para ali seguira a bordo do Espírito Santo, viajando de 4 a 7 de agosto. Logo no dia 12, uma carta ao general Solon rompe o presumível silêncio para tratar de assunto bastante delicado, vendo-se Euclides em palpos de aranha para se explicar ao sogro, o que trata de fazer. Trechos dessa carta foram publicados na Revista do Brasil, n.78, de junho de 1922 reproduzindo artigo de Maurício de Lacerda em O Imparcial (s/d), intitulado "A missão de Euclides" . O autor do artigo esclarece que Euclides se hospedara em Salvador "em casa do tio José", cujo papel timbrado utiliza. Os trechos são os seguintes

Deve estar surpreendido com a minha vinda à Bahia, inesperadamente. A minha missão é esta: fui convidado em São Paulo para estudar a região de Canudos e traçar os pontos principais da Campanha. Aceitei-a e vim. Além do assunto ser interessante, além de estar em jogo a felicidade da República, considerei que tínheis um nobre papel em tudo isto e almejo defini-lo bem perante o futuro. Conseguí-lo-ei? Anima-me a intenção de ser o mais justo possível: porei de lado todas as afeições para seguir retilineamente. Assim pensando aceitei uma apresentação do Dr. Campos Sales para o Dr. Luís Viana que me tratou gentilmente. É escusado porém, declarar que motivos de ordem elevada fizeram com que agradecesse os seus oferecimentos. Aquela apresentação era indispensável não só para afastar injustas prevenções como também porque vindo eu no Estado Maior do general Bittencourt e estando este hospedado com o governador, o que me obriga a ir diariamente a palácio. somente vexado cumpriria esse dever.
(...) Trago à Bahia a mais nobre e elevada aspiração e hei de realizá-la. Estou certo que meu velho amigo e chefe que me conhece bastante aprova-la-á inteiramente.
(...) Carta escrita às pressas, tão às pressas que inverti a folha de papel: são as preocupações constantes agravadas pelas saudades dos entes queridos.

O motivo dessa tortuosa explicação é que o sogro e o governador eram agora inimigos jurados. O primeiro tendo sido até o começo do ano comandante do 3° Distrito Militar, com sede na Bahia; e o estopim do dissídio fora justamente a Guerra de Canudos. A Expedição Tenente Pires Ferreira, ou primeira expedição contra Canudos, formara-se com forças estaduais. Mas a segunda, ou Expedição Major Febrônio de Brito, fora integrada por tropas federais, sob responsabilidade do comandante do distrito. O fracasso de mais essa expedição acabou provocando um desentendimento entre o general e o governador - cada um responsabilizando o outro pelo desastre - do qual resultara a demissão daquele.

No início da quarta expedição, ou Expedição Artur Oscar, o correspondente da Gazeta de Notícias, no Rio, procura o governador Luís Viana para uma entrevista a respeito da guerra, publicada a 7 de agosto de 1897. Este se defende da acusação de estar mancomunado com conselheiristas e monarquistas, negando ter pedido ao Governo da União a demissão do general Solon, a quem, em troca, atribui a acusação. Aproveita para atacar outro inimigo, o ex-vice-governador José Gonçalves, e repele a suspeita de que hostiliza o Exército. Mas tem mais. O diligente repórter sai no encalço de José Gonçalves e publica sua entrevista a 17 de agosto. Este põe na conta de Luís Viana a derrota de todas as expedições e o clima de intranqüilidade reinante. Sobre a atuação do governador, diz que "aqui reina o mais estúpido e brutal despotismo". E sai em defesa do general Solon, o qual, segundo Luís Viana, se recusava a deixar a Bahia apesar de demitido e o intrigava com o Exército. Acrescenta que Luís Viana atrapalhara a ação do general porque. a seu ver. interferira na soberania do Estado. As farpas com que os figurões se mimosearam mutuamente e a terceiros, a propósito, ou a despropósito, exigiram que Euclides desse uma explicação ao sogro: afinal, tomara a iniciativa de ir apertar a mão do governador. Sua carta data de cinco dias após a publicação da entrevista de Luís Viana no Rio. A crer em seus termos, o general Solon não estava a par de sua nova tarefa, aliás nebulosamente definida. Como se não bastasse - e o tom é de justificativa -, ainda precisa pedir desculpas por ter-se valido de uma apresentação do futuro presidente Campos Sales a Luis Viana, o álibi sendo Machado Bittencourt hóspede do governador, "o que me obriga a ir diariamente a palácio". O caso é de fato delicado e o missivista multiplica negaceios, turvando ainda mais as águas.

Dias depois, uma carta a Reinaldo Porchat, de 20 de agosto, nem sequer alude ao assunto. Na qualidade de membro do Estado-Maior do ministro da Guerra, doublé de repórter, Euclides seguira junto com o ministro e com as tropas, a bordo do Espírito Santo, do que vai dando conta nas matérias que envia para o jornal. Ao amigo, apenas reclama da demora da estada em Salvador

Bahia, 20 de agosto de 1897.
Porchat
Desejo-te saúde e felicidades assim como a toda a família.
Ainda aqui estou há quinze dias e deves avaliar com que contrariedade. Estou bom, porém, e animado. Infelizmente o ministro não permitiu que eu o precedesse e fosse esperá-lo em Canudos; de sorte que temo não ir a tempo de assistir à queda do arraial maldito.
A vida aqui além de insípida é lúgubre - uma distração única - assistir à chegada dos feridos, assistir à partida de tropas. Uma coisa pavorosamente monótona. Custa-me a suportar a empresa - suporta-la-ei, porém, inflexivelmente; a despeito de tudo. Basta dizer-te que depois de grande constipação assaltou-me a hemoptise habitual, ontem. Nada disto, porém, me desanima; irei até aonde me levar o último resto de energia e só voltarei quando a marcha para a frente for um suicídio. Saudades ao Nogueira, saudades a todos os amigos e recomenda a toda a tua digna família o
Amigo
Euclides
Escreva-me para o Banco Comercial, aos cuidados do Sr. José Rodrigues Pimenta da Cunha - Bahia.

Entre os enredos infelizmente incompletos e as queixas quanto à saúde, freqüentes em sua epistolografia, Euclides encontrou tempo para outras atividades, inesperadas na conjuntura, como procurar Pethion de Villar e cuidar de literatura. Disso dá conta um cartão de visita (com os dizeres impressos "Euclides da Cunha - Engenheiro militar"), sem data, contendo um bilhete dirigido ao médico e escritor baiano Egas Moniz Barreto de Aragão, que usava aquele pseudônimo 3:

Ilustre Pethion de Villar
Ontem à noite procurei recordar alguns trechos dos "Holandeses" e dos "Bandeirantes". Aí vão truncados, mal recordados. É uma lembrança vaga e nada mais. Recado de quem seria feliz se fosse um confrade
Euclides

A anotar, a insinuação de vir a ser confrade, ou seja, colega de Academia. Posteriormente, duas outras cartas, datadas de São José do Rio Pardo a 15 de maio de 1900 e de Lorena a 6 de fevereiro de 1903, confirmarão esse contato pessoal efetuado em Salvador. Ambas aludem a um oferecimento que teria sido avançado por Pethion de Villar, "quando aí estive", conforme a primeira, de traduzir para o francês o futuro livro sobre a Campanha; o que não veio a ocorrer. Mas o missivista aproveita para participar que o livro está pronto. Na segunda, agradece a carta recebida, em que o baiano louva Os sertões, e lembra de novo a promessa de tradução. Está em via de tornar-se de fato um confrade, mas em nível nacional e não estadual, dado que a carta a Machado de Assis, presidente da Academia Brasileira de Letras, apresentando sua candidatura, é de 21 de junho de 1903.

Voltando ao bilhete: Os holandeses deve ser o título provisório ou alternativo de um drama em versos inconcluso, do qual resta um trecho chamado "Calabar", hipoteticamente atribuído ao ano de 1887. Quanto a Os bandeirantes, há dois poemas dedicados a Coelho Neto que nele poderiam se encaixar, pelo assunto. Um é "As catas", que leva a data de Campanha, 1895; o outro é "Fragmentos de poesia", datado de 1896. Todos figuram na seção "Poesia", das Obras completas 4. É de lamentar que os anexos referidos pelo bilhete se tenham perdido.

Em meio a tais rapapés versificados, Euclides ganharia dedicatória de Pethion de Villar a um soneto em francês, estampado na primeira página do Diário da Bahia de 10 de outubro de 1897, cinco dias após o término da guerra:

CAIN
A M. Euclides da Cunha
15... Possuitque Dominus Cain signum. . .
16... Egressusque Cain a facie Domini,
habitavit profugus in terra...
(Gênesis, cap. IV)
Le carnage est fini troués par la mitraille,
Noirs de poudre, étendus sur dês flaques de sang,
Dês cadavres partout, pêle-mêle, jonchant
La plane ou s'engouffra la terrible bataille.
Et la nuit va venir: le grand frisson descendu,
Au loin, mille vautours volent pour la ripaille;
L'Abandon, le Silence et le Néant qui baille
Pás un cri de pitié sur cet égorgement!
À poil, sur un cheval monstrueux qui se penche,
Harassé, en flairant la puanteur des corps,
Il apparait soudain, un Spectre à barbe blanche
Tout nu, l'oeil assouvi, qui, le poing sur la hanche,
Solennel et muet, sans haire et sans remords, T
reverse lentement l'arène de la Mort...
Bahia - le 9 octobre 1897.
Pethion de Villar

O mito de Caim foi caro aos românticos, que nele simbolizavam com sinal positivo o herói maldito, o rebelde, o desafiador das convenções burguesas. Entre os mais célebres poemas consagrados ao errante, anteriores a este, e de grande popularidade oitocentista, estão os de Victor Hugo na "Légende dês siècles", o "Abel et Caïn" de Baudelaire e o "Qaïn" de Leconte de Lisle. Como sempre, os modelos franceses eram mais acessíveis aos brasileiros; mas nem por isso se devem esquecer as contribuições de Shelley e de Byron. Entretanto, a imagem visual evocada pelo soneto de Pethion de Villar lembra mais a iconografia dos quatro cavaleiros do Apocalipse - a Morte, um velho nu de barbas em sua esquelética montaria, lado a lado com a Peste, a Fome e a Guerra. Assim aparecem em inúmeras representações, inclusive a famosa de Albrecht Dürer. Aqui, o título alegoriza a natureza fratricida das lutas de Canudos.

Mais duas cartas a Reinaldo Porchat encerram o ano de 1897. Na primeira, de 27 de outubro, enviada da fazenda paterna, Euclides se mostra desolado por não ter podido ficar em São Paulo para presenciar as festas de recepção aos "teus valentes patrícios", por motivo de doença. A alusão diz respeito às tropas paulistas do 6° batalhão de polícia que lutaram na guerra e que foram objeto de um artigo laudatório do escritor, 'O batalhão de São Paulo", que aparecera um dia antes, a 26 de outubro. Nele, Euclides menciona "a epopéia ainda não escrita dos Bandeirantes

Belém do Descalvado, 27 de outubro de 1897.
Porchat
Desejo-te saúde e felicidades.
Desculpa-me o ter partido daí sem ter procurado ver-te. Saí doente - e ainda estou; ainda tenho restos da maldita febre .
Sou caipora! Não assisti às festas feitas aos teus valentes patrícios !
Não posso escrever muito: estou quebrando uma dieta para conversar um pouco contigo. Recomenda-me a toda a família. E escreva-me, escreva-me logo que receberes esta.
Estarei de volta nestes quinze dias.
Adeus. Receba um abraço do
Amigo
Euclides

A segunda, quase findo o ano, mostra o escritor juntando materiais para Os sertões, ao solicitar o envio de um livro sobre "mania religiosa"

São Paulo, 10 de dezembro de 1897.
Meu caro Porchat
Aí estive um dia - rapidamente e não tive ocasião de abraçar-te. Volto logo para a roça porque me sinto outra vez doente. Desculpa-me, pois. O Mesquita acaba [de] dizer-me que o Franco da Rocha tem um livro sobre a Mania religiosa e que me é destinado. Peço-te, pois, procurar aquele nosso amigo - e enviar-me o livro para o Descalvado (Estação da Aurora). Não registre, porém, porque ocasionaria maior demora. Adeus, vá desculpando sempre todas essas aparências de ingratidão do sempre
Amigo
Euclides da Cunha

Os tempos seguintes serão tomados pela feitura de Os sertões e, por isso mesmo, ficarão praticamente omissos em epistolografia. Só mais tarde é que esta recomeça a se intensificar, estando a tarefa terminada. O que faz supor, se não for uma imprudente dedução baseada naquilo que restou, que a Euclides não sobrava disposição para escrever outra coisa que não o livro. E a correspondência preservada após a publicação aumenta consideravelmente, na razão direta da mudança de status do autor.

Notas

1. Correspondência de Euclides da Cunha, São Paulo, Edusp, 1997

2. Dessa fase, três cartas foram publicadas por Rosaura de Escobar no Suplemento Euclidiano da Gazeta do Rio Pardo, n. X, 1987, e três posteriores figuram nas principais coletâneas.

3. Devo este bilhete ao pesquisador e erudito Erthos Albino de Souza, que o encontrou e fotografou em Salvador; o autógrafo pertence a Antônio Paulo Góis de Araújo.

4. Euclides da Cunha, Obras completas, Rio de Janeiro, Aguillar, 1966, vol. 1, p. 646-7, 652-5.


O Berrante Online é uma criação coletiva do Coletivo Euclidiano. Contribuições são bem-vindas!