DO MAR SE FEZ O SERTÃO: EUCLIDES DA CUNHA E CANUDOS



ROBERTO VENTURA

Professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo

 

Os sertões, de Euclides da Cunha, se insere em um gênero de grande presença na cultura brasileira dos últimos cem anos: o ensaio de interpretação do Brasil. O ensaio se tornou uma forma privilegiada pelos escritores brasileiros, por permitir a combinação de conhecimentos ecléticos e de experiências múltiplas a partir de um estilo literário, com traços poéticos ou memorialísticos. O ensaio é, para Antonio Candido, uma forma bem brasileira de investigação e descoberta do país, da qual fazem parte autores como Joaquim Nabuco, Sílvio Romero, Manoel Bomfim, Oliveira Viana, José de Alcântara Machado, Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro. Todos traçaram amplos panoramas da sociedade e da cultura brasileiras com base em modelos vindos da antropologia, da história, da geografia e da sociologia.

 

Luta no sertão


   Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, começou a pregar por volta de 1870 pelo Nordeste e a organizar mutirões para a construção de igrejas e cemitérios. Seus familiares participavam, desde a década de 1830, de um sangrento combate contra um clã inimigo no sertão do Ceará. Para Euclides, essa luta entre as famílias teria criado uma "predisposição fisiológica" entre os seus descendentes, que tornou hereditários os rancores e as vinganças, de modo semelhante aos personagens trágicos dos mitos gregos.

   Filho de um comerciante de Quixeramobim, no interior do Ceará, Antônio Maciel trabalhou na loja do pai, que dirigiu com a morte deste. Com a liqüidação do negócio, foi professor, caixeiro, escrivão e solicitador em várias cidades do estado. Iniciou sua peregrinação mística depois de ter sido abandonado pela mulher, que fugira com um policial. Passou a ser chamado de Conselheiro, título atribuído àqueles que guiavam o povo em orações e davam instruções religiosas.

   Foi proibido em 1882 de pronunciar sermões pelo arcebispo da Bahia, que temia sua crescente influência. Seus conflitos com a ordem estabelecida se agravaram com a proclamação da República. Conselheiro se opunha ao novo regime, que fizera a separação entre Estado e Igreja e introduzira o casamento civil. Acreditava no retorno da Monarquia, forma política tida como eterna.

   Após liderar rebelião contra a cobrança de impostos em Bom Conselho, na Bahia, fixou-se em 1893 com seus seguidores em Canudos, lugarejo com uma igreja, próximo a uma fazenda abandonada, às margens do rio Vaza-Barris, no nordeste do estado. O nome da localidade vinha da existência de plantas, chamadas de canudos-de-pito, que forneciam tubos para cachimbos de barro. Conselheiro criou Belo Monte como refúgio sagrado contra as secas da região e as leis seculares da República.

   O atraso na entrega de madeira, comprada em Juazeiro para a construção de uma nova igreja, foi o estopim de um conflito armado, que se estendeu por quase um ano, de novembro de 1896 a outubro do ano seguinte. Quatro expedições militares foram enviadas contra Canudos. A guerra terminou com a morte de 5 mil soldados e o massacre de uma cidade, cuja população foi estimada entre 10 mil e 25 mil habitantes.

   Foi uma guerra de extermínio, que Euclides da Cunha denunciou em Os Sertões, publicado cinco anos após a destruição da comunidade. Mais de doze jornais enviaram repórteres e fotógrafos na primeira cobertura ao vivo de uma guerra no Brasil, que a instalação de linhas telegráficas tornara possível. A campanha foi fotografada por Flávio de Barros e pelo espanhol Juan Gutierrez, morto em ação.

   A destruição de Canudos se deveu menos ao anti-republicanismo do Conselheiro do que a fatores políticos, como os conflitos entre facções partidárias na Bahia, a atuação da Igreja contra a atuação pouco ortodoxa dos beatos e pregadores e as pressões dos proprietários de terras contra a comunidade, cuja expansão trazia escassez de mão-de-obra e rompia o equilíbrio político da região.

   Outros conflitos em nível nacional transformaram a comunidade em alvo de grupos e facções, como os embates entre civilistas e militaristas, ligados à sucessão do presidente Prudente de Morais (1894-8). A guerra serviu de pretexto à repressão aos grupos monarquistas e aos setores jacobinos, tendo contribuído para a implantação da política dos governadores, criada pelo presidente Campos Sales (1898-1902), em que as lideranças civis de Minas Gerais e de São Paulo passaram a se alternar no poder.

 

A nossa Vendéia


   A guerra de Canudos preencheu o vazio político e existencial em que Euclides se encontrava desde que se desiludira com a carreira militar e com os rumos da República. Pedira licença do Exército em 1895 e reforma no ano seguinte no posto de tenente, com direito à terça parte do soldo. Trabalhava em São Paulo como engenheiro na Superintendência de Obras Públicas, enquanto sonhava em se tornar professor da Escola Politécnica, aspiração que não pôde realizar.

   Duas forças militares enviadas a Canudos já haviam fracassado, quando o coronel Moreira César foi nomeado comandante da terceira expedição. Herói da repressão à Revolução Federalista no sul do país, Moreira César morreu na madrugada de 4 de março de 1897, após o primeiro ataque à cidade. Foi uma derrota humilhante, em que 1.300 soldados abandonaram todo o armamento, e até o corpo do coronel, na fuga desordenada.

   Euclides viu a derrota da expedição Moreira César como a chance de regenerar a República, que se afastara de seus ideais. Era o estopim que permitiria reacender a chama revolucionária, conforme escreveu, em março de 1897, ao seu amigo de Campanha, o político mineiro João Luís Alves: "vejo nesta situação dolorosa um meio eficaz para ser provada a fé republicana".

   Comentou a espantosa derrota da terceira expedição em "A nossa Vendéia", título dos dois artigos que publicou em O Estado de S. Paulo em 14 de março e 17 de julho de 1897. Aproximava o conflito na Bahia da rebelião dos camponeses monarquistas e católicos da região da Vendéia, ocorrida na França de 1793 a 1795. Assim como a Revolução Francesa havia sido ameaçada pela Vendéia, a recém-proclamada República brasileira estaria em perigo pela atuação dos seguidores do Conselheiro. Mas mostrava sua certeza inabalável da vitória do governo: "Este paralelo será, porém, levado às últimas conseqüências. A República sairá triunfante desta última prova."

   Escritos em São Paulo, antes de qualquer contato com o sertão baiano, os artigos já prefiguravam o livro de 1902. Traziam um amplo estudo geográfico e climático da região, além da análise dos aspectos étnicos e culturais do homem sertanejo, com base, em grande parte, nas informações fornecidas pelo engenheiro baiano Teodoro Sampaio, seu colega na Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas, que explorara a área. Citava viajantes e naturalistas, como Martius, Saint-Hilaire, Humboldt e Caminhoá, e antecipava algumas das teses de Os sertões sobre a simbiose entre a terra e o homem.

   Graças aos artigos, foi convidado por Júlio de Mesquita para cobrir a quarta expedição como correspondente de O Estado de S. Paulo. Tinha a missão, segundo o jornal, de enviar correspondências do teatro das operações, além de tomar notas e fazer estudos para escrever um trabalho de fôlego sobre Canudos e o Conselheiro, que o Estado iria publicar em volume. Pretendia dar ao livro o mesmo título dos artigos, A nossa Vendéia, reforçando o paralelo entre a história francesa e a brasileira.

 

Em Canudos


   Euclides participou, como repórter, de agosto a outubro de 1897, da quarta e última expedição, formada por 8 mil soldados, sob o comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães. Desembarcou em Salvador no dia 3 de agosto, acompanhando a comitiva do ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt, que seguia para Monte Santo, de modo a organizar a base de operações e garantir o abastecimento das tropas.

   Permaneceu em Salvador até 30 de agosto, quando partiu para Monte Santo, acompanhando o ministro. Ficou na cidade até 13 de setembro, quando finalmente obteve autorização para ir a Canudos. Temia, conforme escreveu ao advogado paulista Reinaldo Porchat, não chegar "a tempo de assistir à queda do arraial maldito".

   Chegou a Canudos em 16 de setembro e tomou contato com uma cidade semidestruída pelos constantes bombardeios, com seus habitantes privados de água e comida. Presenciou pouco menos de três semanas de luta, até 3 de outubro, quando se retirou doente, dois dias antes do fim da guerra, com acessos de febre. Não assistiu ao massacre dos prisioneiros, à queda da cidade, ou à descoberta do cadáver do Conselheiro e de seus manuscritos. Tais cenas, ausentes de suas reportagens, foram relatadas de forma sucinta em Os sertões.

   Passeou, dentro da cidade, em 29 de setembro, como contou no penúltimo artigo enviado de Canudos: "passeio perigosamente atraente, com os jagunços a dois passos apenas, nas casas contíguas". Anotou, no mesmo dia, na caderneta de bolso que trazia consigo: "Não posso definir a comoção ao entrar no arraial." Decepcionou-se com o aspecto daquela povoação estranha, cujas ruas eram substituídas por um labirinto de becos, com casas que se acumulavam em absoluta desordem, como se tudo aquilo tivesse sido construído "febrilmente -- numa noite -- por uma multidão de loucos!" Assustou-se ainda com o interior dos casebres: escuros, sem ar e com pouca mobília.

   Euclides silenciou sobre as atrocidades da guerra, no que foi acompanhado por quase toda a imprensa. Sentiu-se tolhido para atacar o Exército e se deixou cegar pela máquina de propaganda da imprensa e do governo, para a qual contribuiu com artigos exaltados, que se encerravam com os brados patrióticos de "viva a República" ou "a República é imortal". Era desde 1896 tenente reformado e fora nomeado, para a cobertura da guerra, adido ao estado-maior do ministro da Guerra, com direito a ordenança. Acompanhou grande parte dos combates junto aos oficiais da comissão de engenharia e do quartel-general.

   Os materiais enviados pelos correspondentes, sobretudo pelo telégrafo, eram submetidos à censura militar. Mas jornalistas, como Favila Nunes, da Gazeta de Notícias, do Rio, e Lelis Piedade, do Jornal de Notícias, da Bahia, chegaram a mencionar atos de violência das tropas. Outro repórter, Manoel Benício, do Jornal do Comércio, do Rio, foi tão incisivo em suas críticas à imperícia do general Artur Oscar que acabou sendo expulso de Canudos. A crueldade da campanha só foi revelada porém, de forma veemente, pelo monarquista Afonso Arinos, no Comércio de São Paulo, que denunciou a degola dos prisioneiros e os abusos cometidos contra mulheres e crianças.

   As reportagens de Euclides se interromperam de forma súbita em 1o de outubro. Escreveu sobre as manhãs admiráveis em Canudos, com os raios de sol que iluminavam o círculo de montanhas, e relatou o violento ataque à cidade, que assistiu da sede da comissão de engenharia. Sentiu-se profundamente desapontado ao contemplar, após os combates, os feridos que gemiam amontoados no chão, numa cena lhe pareceu mais lúgubre do que o vale do inferno de Dante: "acreditei haver deixado muitas idéias, perdidas, naquela sanga maldita, compartindo o mesmo destino dos que agonizavam manchados de poeira e sangue..."

 

Os sertões revisitados


   Passou quatro anos após o término da guerra, preenchendo centenas de folhas de papel, para ordenar o caos e superar o vazio trazidos sob o impacto daquela região assustadora, de onde voltou deprimido e doente. Seguia revendo, na mente, as imagens comoventes do conflito, como escreveu, em Salvador, no poema "Página vazia".

   Grande parte do livro foi redigido em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo. Morou na cidade por três anos, de 1898 a 1901, para reconstruir a ponte metálica sobre o rio, que caíra devido a uma enchente. Das páginas escritas em um pequeno barracão no canteiro de obras, ou em sua casa à noite, surgia uma nação em ruínas que devorava os seus próprios filhos.

   Enquanto lançava novas bases para a ponte sobre o rio Pardo, escrevia sobre a necessidade de refundar a República brasileira, que havia se corrompido com o militarismo dos primeiros governos e o liberalismo ilusório de uma Constituição que as elites civis desrespeitavam por meio de fraudes eleitoriais. Aderia assim à denúncia da política dos governadores e à pregação pela revisão constitucional do deputado e jornalista Júlio de Mesquita e do grupo reunido, a partir de 1901, em torno do jornal O Estado de S. Paulo e da dissidência do Partido Republicano Paulista.

   Acusou, em Os sertões, o Exército, a Igreja e o governo pela destruição da cidade e fez a autocrítica do patriotismo exaltado de suas reportagens. Reconheceu a omissão de sua cobertura da guerra, ao relatar o massacre dos prisioneiros sobre o qual antes calara. Criticou ainda o confronto entre Canudos e a Vendéia, que empregara em seus artigos, e descartou a idéia de uma conspiração política, apoiada por grupos monárquicos e por países estrangeiros, que havia justificado o massacre.

   Abriu o livro com um vôo panorâmico sobre o planalto brasileiro, que se inicia nas escarpas do litoral ao Sul e segue pela bacia do rio São Francisco até se aproximar do solo deprimido e revolto do vale do Vaza-Barris. O movimento descendente do narrador se aproxima da visão do poeta de "O navio negreiro" (1868), de Castro Alves, que observa do alto as ondas do oceano até baixar, nas asas do albatroz, ao tombadilho ensangüentado da embarcação, em que se encontram os escravos acorrentados.

   Adotou uma concepção naturalista, baseada no historiador francês Hippolyte Taine, que lhe forneceu a base científica, ou o pretexto, para buscar correspondências poéticas entre os fatos narrados e a paisagem à sua volta. Tais concepções naturalistas deram um verniz de ciência à sensibilidade romântica que formara na juventude. Percebia, de forma dramática, o conflito entre natureza e história e procurava entender, em termos artísticos e científicos, os modos de interação entre ambas.

   Taine considerou, na Histoire de la littérature anglaise [História da literatura inglesa] (1863), que a vida de um povo seria determinada por três fatores: o meio, ou o ambiente físico e geográfico; a raça, responsável pelas disposições inatas e hereditárias; e o momento, resultante das duas primeiras causas. Esse modelo também foi seguido por Sílvio Romero em sua História da literatura brasileira (1888), que tomou a literatura do Brasil como expressão da natureza e do povo, explicando o seu surgimento a partir da ação diferenciadora do mestiço.

   Euclides dividiu o livro em três partes, correspondentes aos fatores apontados por Taine: "A terra", "O homem" e "A luta". Tratou, em "A terra", da geologia e da geografia do sertão, incluindo o clima do semi-árido, a vegetação da caatinga e a problemática das secas que assolam a região. Recriou, numa versão laica do Gênesis, mundos revoltos e instáveis, varridos por mares pré-históricos e por labaredas de proporções bíblicas. Desceu às camadas profundas do solo e recuou até a origem do continente e de seus habitantes, para explicar a irrupção quase vulcânica do Conselheiro e de seus seguidores.

   Abraçou idéias controversas dos geólogos Emmanuel Liais e Frederic Hartt sobre a formação recente do sertão baiano, que considerou ser o fundo recém levantado de um mar extinto, cujo solo conturbado revelaria a "agitação das ondas e das voragens". Criou uma fantasia geológica sobre a existência pré-histórica de mar na região de Canudos, o que prenunciaria as profecias atribuídas ao Conselheiro de que o sertão iria virar praia, com a esperança de uma inversão climática capaz de trazer a redenção.

   Mostrou a interação entre os elementos, como a água e o fogo, que se revezam na criação e na destruição do sertão. Afastou-se, em parte, do determinismo geográfico, ao admitir a possibilidade do homem amenizar os efeitos das secas pela construção de açudes e canais, tomando, como exemplo, a atuação dos romanos e dos franceses na Tunísia. Criticou também a devastação do meio-ambiente pelas queimadas que o colonizador ganancioso aprendera com o indígena, assumindo o papel de "terrível fazedor de desertos". Capaz de criar desertos, o homem poderia também extingui-los, corrigindo o passado. Encerrou seu relato com o lamento pelos rebeldes, dizimados a ferro e fogo, abatidos pelas balas e facas dos soldados e incinerados pelas bombas de dinamite e tochas de querosene, que reduziram Canudos a cinzas.

   "Barbaramente estéreis", "maravilhosamente exuberantes", os sertões formam, para o autor, uma categoria geográfica própria, paradoxal e antitética, capaz de oscilar entre a aridez das estepes e desertos e a abundância dos vales férteis. Procurou recriar tais variações climáticas pelo ritmo binário, pelas repetições sonoras e sintáticas e pelas acelerações rítmicas, freqüentes em sua descrição da natureza, que personificou como participante da luta. O "martírio do homem", submetido à violência das estiagens prolongadas, seria apenas o reflexo de uma tortura maior: "Nasce do martírio secular da Terra..."

   Tomou a natureza dos sertões como cenário ou símbolo, que projeta sombras e imagens sobre a narrativa. A vegetação da caatinga, com galhos secos e contorcidos, permitiria antever o sacrifício dos sertanejos degolados pelos soldados. As flores rubras das cabeças-de-frade, deselegantes e monstruosas, lembravam "cabeças decepadas e sanguinolentas jogadas por ali, a esmo, numa desordem trágica". As palmatórias-do-inferno, "diabolicamente eriçadas de espinhos", evocariam a paixão de Cristo e o sacrifício dos conselheiristas.

   Discutiu, em "O homem", as origens do homem americano, a formação racial do sertanejo e os malefícios da mestiçagem. Construiu uma teoria fatalista do Brasil, cuja história seria movida pelo choque entre etnias e culturas destinadas ao desaparecimento. Recorreu às concepções do sociólogo austríaco Ludwig Gumplowicz (1838-1909), que considerava a história guiada pelo conflito entre raças, do qual resultaria o esmagamento inevitável dos fracos pelos fortes. Alarmado com o avanço da cultura estrangeira, lançou um brado de alerta em Os sertões: "Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos".

   Seguia teorias raciais, baseadas na crença na inferioridade dos não-brancos, que davam ares de ciência ao preconceito de cor. Explicou a guerra como o resultado do choque entre os curibocas do sertão, formados de brancos e índios, e os mestiços do litoral, tidos como neurastênicos e desequilibrados pela mistura entre brancos e negros. Glorificou o mestiço do sertão, que apresentaria vantagem sobre o mulato do litoral, devido ao isolamento histórico e à ausência de componentes africanos, que tornariam mais estável sua evolução racial e cultural. "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral".

   Elevou o homem do sertão, vítima do ataque das forças republicanas, à altura dos grandes heróis dos poemas épicos e dos romances de cavalaria. Retratou-o como vaqueiro envolto em gibão de couro, de modo semelhante a um titã grego ou a um guerreiro antigo coberto por armadura. Em uma passagem antológica de "O homem", descreveu o estouro da boiada com uma tal concentração de recursos expressivos, de ordem sonora, sintática e rítmica, que os milhares de animais desgovernados acabaram transfigurados em um único corpo, monstruoso e fantástico, sobre o qual se lança o vaqueiro em disparada. Caracterizou ainda o homem do sertão como centauro, pela simbiose com a montaria, imagem que já fora empregada, junto com as alusões à cavalaria medieval, por José de Alencar no romance O sertanejo (1876).

   Euclides imaginou o sertanejo como o resultado da confluência entre a bravura indígena e a ousadia dos bandeirantes paulistas, que penetraram pelos rios Tietê e São Francisco rumo ao interior, expandindo o território da colônia portuguesa nos séculos XVII e XVIII. O curiboca do sertão é tomado como o resultado da união entre os desbravadores vindos de São Paulo e os indígenas oriundos do continente americano. Tipo autônomo, aventureiro e rebelde, responsável pela integração nacional, o paulista abarcaria não só os habitantes de São Paulo, mas os filhos dos estados do Sul e do Centro-Sul, incluindo Rio de Janeiro e Minas Gerais!

   Difundiu, em Os sertões, junto com o mito do sertanejo, uma outra representação análoga, o mito do bandeirante, que foi depois retomada por Afonso d'Escragnolle Taunay, em História geral das bandeiras paulistas (1924-50), por Oliveira Viana, em Populações meridionais do Brasil (1920), e por Alfredo Ellis Júnior, em Raça de gigantes (1926). Do cruzamento entre brancos e índios teria resultado, segundo Ellis Júnior, uma "sub-raça superior", cujo caráter guerreiro e individualista lançou as bases da hegemonia paulista.

   Seguindo as teorias do geólogo canadense Charles Frederic Hartt sobre uma suposta origem autóctone do homem americano, Euclides criou uma imagem grandiosa do homem do sertão como ser autêntico, enraizado no solo, com cultura própria e evolução autônoma garantidas pelo isolamento geográfico. Chamou assim o sertanejo de "rocha viva" da nacionalidade, base sobre a qual se poderia criar o brasileiro do futuro. Traçava a analogia entre o granito, composto de três minerais, e o povo brasileiro, resultante da mistura de branco, índio e negro, que expôs nas notas à segunda edição. A imagem se inscreveu no texto de Os sertões no mesmo período em que escavava, como engenheiro de obras, o leito do rio Pardo em busca da rocha granítica que lhe permitiria reconstruir em fundamentos sólidos a ponte metálica que ruíra.

   Finalmente, em "A luta" e nos capítulos seguintes, narrou os acontecimentos da guerra, que levaram à destruição da comunidade, realizada em nome da consolidação da ordem republicana. Procurou mostrar como os dois lados do conflito - o litoral e o sertão - se encontravam tomados por fanatismos religiosos e políticos. Os soldados saudavam a memória do marechal Floriano Peixoto, morto dois anos antes, cuja efígie traziam no peito, com o mesmo entusiasmo doentio com que os jagunços bradavam pelo Bom Jesus. O coronel Moreira César, comandante da terceira expedição, líder epiléptico dos florianistas, é tido como tão desequilibrado quanto o Conselheiro. Ambos refletiriam a instabilidade dos primórdios da República.

    Euclides viu o sertão como reflexo do litoral: a barbárie estaria por toda parte. Tal nota pessimista encontrou expressão nas inúmeras antíteses, que indicam suas próprias hesitações no julgamento da guerra. Canudos é a "Tróia de taipa dos jagunços", misto de cidadela inexpugnável e de labirinto de casebres de barro, cuja luta evocaria os feitos épicos cantados por Homero. O sertanejo é um herói monstruoso, "Hércules-Quasímodo", tão forte quanto desgracioso. Conselheiro um "pequeno grande homem", que entrou para a história, como poderia ter ido para o hospício...

   Criticou as jornadas jacobinas no Rio de Janeiro, em março de 1897, quando multidões reagiram à notícia da derrota da terceira expedição contra Canudos com a destruição de jornais monárquicos e o assassinato de um jornalista. Considerava os manifestantes da rua do Ouvidor, centro do comércio elegante e das redações de jornais, mais perigosos do que o homem do sertão: são "trogloditas completos", "enluvados e encobertos de tênue verniz de cultura". E observou: "O mal era maior. Não se confinara num recanto da Bahia. Alastrara-se. Rompia nas capitais do litoral".

 

O sertão vai virar mar


   Os sertões é uma obra híbrida que transita entre a literatura, a história e a ciência, ao unir a perspectiva científica, de base naturalista e evolucionista, à construção literária, marcada pelo fatalismo trágico e por uma visão romântica da natureza. Euclides recorreu a formas de ficção, como a tragédia e a epopéia, para compreender o horror da guerra e inserir os fatos em um enredo capaz de ultrapassar a sua significação particular. A epopéia gloriosa da República brasileira, pela qual combatera na juventude, adquiriu caráter de tragédia na violenta intervenção militar que testemunhou em Canudos.

   Dizia ser ele próprio um "misto de celta, de tapuia e grego", para falar do encontro entre sua educação brasileira e a cultura greco-francesa, que o levara à poesia romântica, à ciência naturalista e à retórica clássica, cujos recursos empregou, de forma por vezes exagerada, para amplificar, com grande riqueza vocabular, as inúmeras alusões, comparações e metáforas que empregou. Em carta ao poeta Vicente de Carvalho, de fevereiro de 1909, referiu-se à fatalidade como a "Maldade obscura e inconsciente das coisas", que inspirou a concepção trágica dos gregos.

   Pensou a história a partir dos fatores naturais, estudados pela ciência, e de forças obscuras e ancestrais, assunto da poesia e do mito. Projetou sobre o Conselheiro muitas de suas obsessões pessoais, como o temor da irracionalidade, da sexualidade e da anarquia, para criar um personagem trágico guiado por forças obscuras e ancestrais e por maldições hereditárias, que o levaram à insanidade e ao conflito com a ordem. Viu Canudos como desvio histórico capaz de ameaçar a "linha reta" que se impusera desde a juventude.

   Gilberto Freyre já tinha observado que a natureza que transborda de Os sertões é aquela que a personalidade angustiada do escritor precisou de exagerar para se completar e se exprimir. Euclides transfigurava, pela força da imaginação, a paisagem à sua volta, vendo por toda parte miragens e espectros que remetiam à mitologia, à história e à literatura. As serras de pedra do Cambaio, por exemplo, que as tropas da segunda coluna, sob o comando do general Savaget, tiveram que atravessar sob tiroteio, lhe lembravam velhíssimos castelos ou fortalezas de titãs em ruínas.

   Os sertões se destacou, em meio à enxurrada de livros sobre Canudos, graças à preocupação estilística de seu autor, que fez mais de dez mil emendas nas três edições que lançou em vida, quase todas de ortografia, vocabulário e sintaxe, sem se importar em corrigir alguns enganos factuais. O livro ganhou permanência pela escrita poética e imagética, ainda que se encontrem hoje superados muitos de seus aspectos científicos, como as hipóteses geológicas e as teorias raciais, e parte da reconstrução histórica, marcada por uma visão negativa e mesmo preconceituosa de Canudos e da atuação do Conselheiro.

  Euclides abordou Canudos como comunidade primitiva, "urbs monstruosa", dominada pela desordem e pelo crime. Viu o povoado como um ajuntamento caótico e repugnante de casas, onde haveria o amor livre e o coletivismo dos bens. Revelou o mesmo distanciamento ao comentar as profecias, que julgou serem do Conselheiro, e as quadras de poesia popular, recolhidas junto às ruínas da comunidade. Eram, para ele, "pobres papéis", com "ortografia bárbara" e "escrita irregular", que revelariam o "pensamento torturado" dos sertanejos.

   Transcreveu, em uma caderneta, duas narrativas em versos sobre a guerra e duas profecias apocalípticas, que seriam depois citadas em Os sertões. As profecias contêm uma visão escatológica, anunciando o fim do mundo e a criação do Reino dos Céus na terra, em que os conflitos sociais e políticos seriam superados pela unificação dos homens sob a autoridade divina: "um só pastor e um só rebanho". O sertão viraria "praia", expressão que designa as zonas úmidas entre o litoral e o semi-árido, tornando-se terra de promissão, com fartura de carne e peixe: "Em 1896 há de rebanhos mil correr da praia para o sertão; então o sertão virará praia e a praia virará sertão".

   Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, reuniu seus sermões em dois volumes manuscritos, a que Euclides não teve acesso quando redigiu o livro. Tais prédicas, que só foram publicadas em 1978 por Ataliba Nogueira, mostram um líder religioso muito diferente do fanático místico ou do profeta milenarista retratado em Os sertões. Revelam um sertanejo letrado, capaz de exprimir, de forma articulada, suas concepções políticas e religiosas, que se vinculavam a um catolicismo tradicional, corrente na Igreja do século XIX.

   A partir das fontes orais que recolheu, Euclides recriou o imaginário coletivo dos seguidores do Conselheiro. Propôs uma outra interpretação de Canudos, não como centro de uma conspiração monárquica, mas enquanto comunidade messiânica, em que haveria a espera do rei português d. Sebastião, que voltaria, com seus exércitos, para derrotar as forças da República. Foi assim revivido no Belo Monte o mito do retorno glorioso de d. Sebastião, morto em batalha em 1578, na tentativa de expandir os domínios portugueses na África. O sebastianismo se manteve em Portugal até o século XIX e se manifestou no Brasil em movimentos messiânicos, como na Cidade do Paraíso Terrestre e em Pedra Bonita, ambos em Pernambuco, ou no Contestado, no sul do país.

  As profecias sebastianistas e apocalípticas, que Euclides incorporou a Os sertões, ganharam nova ressonância em Deus e o Diabo na terra do sol (1963), do cineasta Glauber Rocha. No filme, tais profecias ressurgiram pelas falas do beato Sebastião, que contém traços dos líderes de Canudos e de Pedra Bonita, e na trilha sonora composta por Sérgio Ricardo: "O sertão vai virar mar/ e o mar vai virar sertão". Glauber converteu os presságios recolhidos por Euclides em estribilho revolucionário, que celebra a reforma agrária e a redenção política, simbolizadas pelas ondas do vasto mar, para onde corre o vaqueiro Manuel na apoteótica cena final.

 

A tragédia da Piedade


   Euclides da Cunha morreu, em 15 de agosto de 1909, no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro, em tiroteio com os cadetes Dinorá e Dilermando de Assis, amante de sua mulher. Dilermando levou quatro tiros e seu irmão Dinorá foi atingido e ficou mais tarde paralítico, cometendo o suicídio. Sete anos depois, Dilermando matou Euclides da Cunha Filho, o filho preferido do escritor, que tentara vingar a morte do pai.

   Como o Conselheiro, Euclides teve um fim trágico e sucumbiu ao mesmo código de honra que vitimara, no Ceará, a família do futuro líder de Canudos. Ambos foram construtores itinerantes, um de pontes e estradas, o outro de igrejas e cemitérios. Os dois tiveram o destino marcado pelo adultério das esposas e pelas posições de adesão ou de rejeição que tomaram frente à República.

   O médico e escritor Afrânio Peixoto fez a autópsia do engenheiro-escritor e retirou o seu cérebro, que ficou conservado em formol no Museu Nacional até 1983, quando foi enterrado em Cantagalo, sua cidade natal, no estado do Rio de Janeiro. Tratava-se, segundo o antropólogo Roquette-Pinto, de um órgão notável pela riqueza e complexidade das circunvoluções, sobretudo na zona que governa as faculdades de expressão.

   Euclides ironizou, nas páginas finais de Os sertões, Nina Rodrigues, da Faculdade de Medicina da Bahia, como o representante da ciência encarregada de dar a "última palavra" sobre Canudos. A cabeça do Conselheiro foi tirada de seu cadáver e enviada a Rodrigues, que chegou à conclusão de que era o crânio "normal" de um mestiço, sem traços de anomalia ou degeneração. Tal exame confirmaria o diagnóstico psiquiátrico de que a rebelião de Canudos teria resultado do contágio de uma população fetichista por um delirante crônico. O crânio do messias e o cérebro do escritor despertaram o interesse dos legistas e dos antropólogos da época, em busca dos traços físicos e anatômicos do crime ou do estilo.

 

Bibliografia


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