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Moreira César foi ao céu Antônio Moreira César era o seu nome, coronel a sua patente.
O oficial talvez mais celebrado do Exército, a quem se atribuía bravura
sem igual. Era considerado o herdeiro do marechal Floriano Peixoto, falecido
havia dois anos, ídolo dos militares e patrono-mor dos "jacobinos",
como eram chamados os defensores mais intransigentes do regime republicano.
Euclides da Cunha o descreve: "O aspecto reduzia-lhe a fama. De figura
diminuta E, no entanto, quanto respeito
O elenco da epopéia do sertão pode ser prolongado ao infinito:
coronel Tamarindo, o segundo de Moreira César; cabo Roque, herói efêmero
de uma bravura que não houve; marechal Bittencourt, o ministro da Guerra.
Do lado dos conselheiristas, a turma dos jagunços valentes, alguns formados
na escola do cangaço antes de se juntar ao Conselheiro e se tornar os
cabeças de seu Exército improvisado: João Abade, o "comandante da
rua", como era conhecido A estes, acrescentem-se os acólitos religiosos do Conselheiro:
Antônio Beatinho, José Beatinho, Paulo José da Rosa. José Beatinho, com
sua bela voz, fazia as rezas mais bonitas e mais pungentes. Havia o sineiro
Timotinho. Até o fim, não importava o vareio de balas, o troar de canhões
e o mar de cadáveres que se interpunham em seu caminho, nas ruas estreitas
do arraial, Timotinho cumpria a obrigação de tocar o sino. Morreram juntos,
ele e o sino, um arremessado para cada lado, quando uma bala de canhão
atingiu a torre da igreja velha. A Guerra de Canudos é tão rica de personagens
quanto a A guerra começou com um equívoco. Correram rumores em Juazeiro,
à margem do Rio São Francisco, a noroeste de Canudos, de que, por causa
do atraso na entrega de uma encomenda de madeira para a construção da
nova igreja do arraial, os conselheiristas preparavam uma invasão da cidade.
A população assustou-se com o boato, o juiz local notificou o governador
do Estado, Luís Viana, e este resolveu enviar a Canudos
A segunda expedição, comandada pelo major Febrônio de Brito,
quintuplicou de tamanho Trata-se de uma via-sacra, em que as capelinhas representam
os passos da Paixão. Foi construída no século XVIII, 100 anos antes de
Canudos, por um capuchinho italiano, frei Apolônio de Todi. A subida até
Santa Cruz, longa de 3 quilômetros, é penosa. O caminho é não só íngreme,
quase a desafiar alpinistas, como composto de chão rude de pedras, cortantes
algumas, escorregadias outras. No alto, bate um vento forte e descortina-se
um panorama deslumbrante da região. O Monte Santo de frei Apolônio, reprodução
do que ele imaginava fosse o Calvário de Jesus Hoje, ao chegar a Monte Santo, depara-se com uma placa: "Benvindo, Welcome, Bienvenido. Monte Santo, Altar do Sertão". Como se a cidadezinha perdida nos fundões do Brasil fosse visitada por estrangeiros. Não é, mas os sertanejos continuam a procurá-la. Na Semana Santa, costuma atrair milhares de devotos. Mas mesmo no resto do ano, e especialmente nas sextas-feiras, o dia da feira na cidade, o movimento é grande. É o dia preferido pelos pagadores de promessa. O caminho de pedras que sobe morro acima registra então um contínuo vaivém. Hoje são raros, mas ainda há os que sobem de joelhos ou carregando pedras. Fica-se a perguntar: que tanto se peca, no sertão, que tanto se precisa de penitência? Monte Santo evoca tanto a religião, como cidade santuário, quanto a Guerra de Canudos. No tempo de suas peregrinações pelo sertão, antes de estabelecer-se no arraial, Antônio Conselheiro visitou-a várias vezes. Um ano antes de estabelecer-se em Canudos, encetou, com seus seguidores, trabalhos de restauração em algumas das capelinhas da montanha. Quando os soldados se reuniram em Monte Santo, segundo Euclides, a cidade tomou ares de festa. Barracas militares, centenas de forasteiros: "Tudo aquilo era uma novidade estupenda". A segunda expedição demorou quinze dias na cidade, antes de se pôr a caminho. E, então, tudo foi muito rápido. Bastaram dois dias, ao se aproximar de Canudos, para que, ela também, fosse desarticulada e posta a correr, depois de ter sido surpreendida pelo inimigo emboscado nos morros próximos do arraial insurreto. A humilhação era demasiada. O irredentismo dos "fanáticos" sertanejos, como começavam a ser qualificados, virava questão nacional. O histerismo que tão freqüentemente caracteriza a vida política brasileira, materializado ora em denúncias arrasadoras, ora em invectivas que desqualificam o adversário num dia como um "comunista", no outro como "neoliberal", consolidava uma fantasia: a de que Canudos era a ponta-de-lança de uma reação monarquista. Lembre-se de que o regime republicano fora inaugurado havia apenas sete anos. O novo regime já enfrentara o desafio da Revolta da Armada e da Revolução Federalista. Agora, sob o disfarce do fundamentalismo religioso, vinha dos sertões uma revolta que sem dúvida se ramificava país afora, nos arraiais monarquistas, e quem sabe tinha até apoio do exterior. Para debelá-la, só um bravo como Moreira César. Paulista de Pindamonhangaba, então com 47 anos, o coronel foi convocado para chefiar os 1 300 homens que formariam na terceira expedição. Da lenda de Moreira César faz parte uma coleção de marcos
na região. Na cidade de Euclides da Cunha, a antiga Cumbe, apontarão ao
visitante a casa em que ele ficou, quando por lá passou, a caminho de
Canudos Como pôde o coronel acabar desse jeito? Ele vinha tão confiante...
Ao se aproximar de Canudos, ordenou que se disparassem dois tiros de um
de seus quatro canhões Krupp. "Lá vão dois cartões de visita ao Conselheiro",
disse. Ao longo da marcha, sua preocupação maior era que os conselheiristas
abandonassem o arraial, privando-o da glória de derrotá-los. À medida
que se aproximava, o otimismo aumentava: "Vamos tomar o arraial sem
disparar mais um tiro, a baioneta". Ocorre que Moreira César tinha
outro adversário, tão difícil de vencer quanto o Conselheiro Os infortúnios de Moreira César e sua expedição estão magistralmente
descritos em Os Sertões. Morto o comandante, a desarticulação da
tropa foi geral. O coronel Pedro Nunes Tamarindo, que deveria sucedê-lo
no comando A morte do cultuado coronel elevou à potência máxima o clima nacional de histeria. As turbas invadiram as ruas do Rio de Janeiro. "A correria do sertão entrava arrebatadamente pela civilização adentro", escreveu Euclides. "Vingança" e "morte aos monarquistas" eram as palavras de ordem. Jornais monarquistas foram empastelados. Um monarquista, o coronel Gentil de Castro, fiel escudeiro do último primeiro-ministro do Império, o visconde de Ouro Preto, foi assassinado. Criavam-se fantasias. Correram rumores de que um certo cabo Roque, ordenança de Moreira César, heroicamente, tinha permanecido ao lado do corpo do chefe e resistira até o último cartucho, preferindo a morte a permitir que o inimigo profanasse a sagrada relíquia. Uma rua no Rio e outra em São Paulo foram batizadas com o nome do cabo Roque. Eis então que Roque reaparece, são e salvo, entre os últimos fujões retardatários, e destrói o Roque da fantasia. O cabo Roque de verdade, desprovido de qualquer glória, veio a morrer prosaicamente em 1900, de peste bubônica, no Rio. Quanto a seu malogrado chefe, ficava agora entregue aos cantos do sertão, mesmo que equivocados, confundindo o local em que foi abandonado o corpo com o da morte: Coronel Moreira César
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