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O LEGADO DO CONSELHEIRO
Cem anos depois, Canudos
é uma ferida,
e um emblema do Brasil
Roberto Pompeu de Toledo
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Canudos em chamas, numa foto
da época: calcula-se que 15000 pessoas morreram |
Foto: Flávio de Barros |
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Onde ficava Canudos, hoje: açude
no lugar do arraial e, ao fundo, os morros do Mário e da Favela |
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Foto: Orlando Brito |
Vestia um camisolão azul, sem cintura. Tinha cabelos longos
como Jesus e barbas longas. Nos pés calçava sandálias para enfrentar o
pó das estradas e, a cabeça, protegia-a do sol inclemente com um chapelão
de abas largas. Nas mãos levava um cajado, como os profetas, os santos,
os guiadores de gente, os escolhidos, os que sabem o caminho do céu. Saudava
as pessoas dizendo "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo".
Respondiam-lhe dizendo "Para sempre seja louvado". Chamava os
outros "meu irmão". Os outros chamavam-no "meu pai".
Foi conhecido como Antônio dos Mares, uma certa época, e também como Irmão
Antônio. Os mais devotos o intitulavam "Bom Jesus", "Santo
Antônio". De batismo, era Antônio Vicente Mendes Maciel. Quando fixou
sua fama, era Antônio Conselheiro, nome com o qual conquistou os sertões
e além. O mais célebre cronista de suas aventuras, Euclides da Cunha,
escreveu em Os Sertões que poderia tanto ir para a História como
para o hospício. Maldade considerá-lo caso de hospício. Foi para a História,
e nela cravou um marco profundo um ferimento. Transformou-se num dos personagens
mais perturbadores da História do Brasil, figura central de um dos episódios
mais extravagantes, equivocados e trágicos da nacionalidade, e também
dos mais fascinantes, em que o Brasil defronta o Brasil, estranha o Brasil
e choca-se frontalmente com o Brasil.
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A igreja de Crisópolis, feita pelo
Conselheiro: "Só Deus é grande" |
Foto: Orlando Brito |
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A Guerra de Canudos, na qual, calcula-se,
morreram 15 000 pessoas, faz 100 anos. No dia 5 de outubro de 1897, depois
de quatro expedições militares, um ano de lutas intermitentes e uma resistência
feroz por parte de seus defensores, o arraial erigido pelo Conselheiro
nos ermos do Nordeste da Bahia foi finalmente tomado pelo Exército. Quase
nada sobrava daquele santuário-cidadela, um povoado que sonhou ser a Jerusalém
dos confins do mundo e acabou uma Pompéia sem Vesúvio, reduzida a escombros,
cadáveres, sangue e cinzas. Escreveu Euclides da Cunha:
"Canudos não se rendeu. Exemplo
único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado
palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer,
quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro
apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais
rugiam raivosamente 5 000 soldados."
Dias antes, em 22 de setembro, morrera
o Conselheiro de disenteria, segundo
alguns, talvez das complicações de um ferimento leve, segundo outra versão,
talvez da desolação e da tristeza que cresciam a seu redor naqueles derradeiros
momentos. Cem anos passados, programam-se seminários, haverá cerimônias
na Bahia e em outras partes, e continua a pairar sobre o país a enormidade
do mistério de Canudos. Mistério, ou misterioso, são palavras usadas muitas
vezes por Euclides da Cunha para qualificar o local que descreve, o ambiente
e a coligação de jagunços e beatos que se opunha à ordem representada
pelo governo da República e o Exército nacional ou talvez o bando de jagunços feitos beatos,
ou beatos feitos jagunços.
Imagine-se a seguinte cena. Depois
de um dia inteiro de combates ferozes, tiros, mortos e feridos de lado
a lado, correria e cansaço infinitos, caía a noite, depunham-se as armas
e fazia-se silêncio no vale onde se situava o arraial e nas montanhas
ao redor. De repente, um rumor começava a insinuar-se na escuridão. Aos
poucos, percebia-se que era um coro de vozes humanas, com predominância
das vozes femininas, num arrastado entoar de ladainhas. Euclides da Cunha
explica: "O inimigo, embaixo, no arraial invisível rezava". O mistério, a sensação de
intercâmbio com o sobrenatural, de parte com o Absoluto, baixava sobre
as desolações do sertão.
Canudos não existe mais. A vila do
Conselheiro, não bastasse ter sido destruída na guerra, encontra-se submersa,
afogada que foi, em 1969, pelas águas do Açude de Cocorobó. A cidadezinha
que hoje toma o nome de Canudos fica a 10 quilômetros da original. Em
volta do açude, qual sentinelas de uma história que insiste em não morrer,
vigiam os morros tornados nacionalmente conhecidos, à época da campanha,
como locais de onde o Exército disparava seus canhões contra o arraial
insurgente, e onde os rebeldes arriscavam suas escaramuças contra as tropas
regulares o Morro da Favela, o Morro do Mário. O
Morro da Favela tornou-se tão famoso que veio a nomear um morro similar
no Rio de Janeiro por causa dos casebres
parecidos com os de Canudos que nele vieram a erigir, segundo uma versão,
ou porque nele se aboletaram os soldados veteranos da campanha, segundo
outra. E a partir daí a palavra "favela" passou a ter um significado
tão simbólico do Brasil quanto as cores verde e amarela.
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José Calazans: a história
reconstruída a partir do
relato dos sertanejos |
Foto: Orlando Brito |
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Uma multidão de casas de taipa, ordenadas,
ou melhor, desordenadas em volta de uma praça: eis o que era o arraial.
O Exército calculou em 25 000 os seus habitantes, o que o tornaria a segunda
cidade da Bahia na época, só inferior a Salvador. Considera-se hoje, em
geral, o cálculo exagerado. Na praça central havia duas igrejas, uma em
frente da outra as chamadas "igreja
velha", a menor, e "igreja nova", esta uma ambiciosa obra
empreendida pelos conselheiristas, nunca terminada. Aquela guerra singular,
tão brasileira quanto a Guerra de Tróia foi grega, e tão reveladora de
mitos, artimanhas e desencontros da nacionalidade, travou-se em torno
da praça das igrejas. Mais particularmente, da igreja nova, em cujas torres
incompletas e andaimes encarapitavam-se os sertanejos para alvejar os
inimigos, e que por sua vez consistia no alvo preferencial da fuzilaria
e do canhoneiro dos soldados. Quando caiu enfim a igreja nova, no finzinho
da guerra, houve grandes manifestações de júbilo entre os soldados e,
segundo o relatório de um dos comandantes militares, "uma entusiástica
e violenta vaia na jagunçada". Aproximava-se do desfecho a bizarra
guerra que teve por centro uma igreja.
Hoje, sobe-se ao Morro da Favela ou
ao Alto do Mário e não se ouvem rezas. O amplo espaço em torno é vazio
e silencioso. Abaixo, vêem-se as águas do açude apenas um plácido lago,
às vezes cruzado por botes simples de pescadores, que num dia de sorte
terminarão sua jornada fornidos de tucunarés, carpas ou tilápias. É um
lago como outro qualquer, consideraria o observador, até mais feio, porque
cercado de árida paisagem. Mas, se se tem consciência das ruínas que ele
encobre, dos muitos cadáveres e da cidade duplamente fantasma, destruída
pelo fogo e afogada nas águas, um frêmito pode percorrer o observador.
O mistério continua.
Antônio Vicente Mendes Maciel, nascido
em Quixeramobim, no Ceará, em 1830, foi professor primário, comerciante
e advogado prático rábula é a palavra , antes de se tornar beato.
Não era de família pobre, mas remediada. Não era um ignorante, mas tinha
suas letras. Alguns atribuem a guinada que deu na vida a uma desilusão
amorosa o abandono da mulher, Brasilina. Ele ainda
se uniria a uma segunda mulher, uma fazedora de imagens conhecida pelo
luminoso nome de Joana Imaginária, antes de renunciar aos amores. Em 1874,
aos 44 anos, já estava avançado na nova senda. É de quando data a primeira
notícia sobre suas atividades, um registro do jornal O Rabudo,
da cidade de Estância, Sergipe, dando conta de um certo Antônio dos Mares
que, em andanças pelo sertão, vinha atraindo um "número espantoso"
de pessoas. Seu modesto mundo circunscrevia-se a lugares perdidos como
Natuba, Cumbe, Masseté, Uauá, Jeremoabo, Itapicuru basicamente o sertão da
Bahia, com uma ou outra incursão a Sergipe. Ele andava, andava. Rezava,
vivia de esmolas e ajudava os necessitados, acompanhado de um séquito
cada vez maior. Quando parava em uma cidade, oferecia-se para recuperar
ou, quando não houvesse, construir uma igreja, ou então os muros do cemitério.
Maciel tinha mania de fazer igrejas e arrumar cemitérios.
Algumas de suas obras subsistem. A
cidade que hoje leva o nome de Crisópolis, fundada por ele próprio, na
década de 1880, com o nome de Bom Jesus, para ali acomodar alguns dos
seguidores, tem em sua praça central uma igreja de sua lavra. A igreja,
que Euclides da Cunha considerou "belíssima", está pintada de
novo e bem conservada. Do séquito do Conselheiro faziam parte pelo menos
dois mestres-de-obras, Manuel Faustino e Manuel Feitosa. A igreja de Crisópolis
obedece a um desenho de Manuel Faustino, sendo dele também a talha do
altar. Numa das paredes internas, pendura-se um medalhão com a inscrição
"Só Deus é grande", o dístico favorito do Conselheiro. A praça
que se estende à frente da igreja, remodelada recentemente, chama-se "Antônio
Conselheiro". A cotação de Maciel nunca andou tão alta, no sertão
e fora dele. Euclides, entre muitos outros epítetos depreciativos, chamou-o
de "messias de feira" e "bufão arrebatado numa visão do
Apocalipse". Considerava-o o "grande desventurado", e,
Canudos, a objetivação daquela "insânia imensa". A cotação do
Conselheiro, hoje, variará de herói para aqueles que vêem
nele um certo tipo de bravura e resistência a um bom homem, que não queria senão a
salvação eterna, para si e os adeptos.
Como se informar sobre esse cearense
que procurava a paz de Deus mas acabou joguete dessa obra do Demo que
são as guerras fratricidas? Durante décadas, a fonte capital e sagrada foi o livro de Euclides da Cunha. Hoje, impossível
introduzir-se no assunto sem passar por José Calazans. O octogenário Calazans
é o decano dos canudistas da Bahia, um grupo de estudiosos voltado à pesquisa
das aventuras do Conselheiro, seu arraial e a guerra. Calazans tem saído
a campo, principalmente, em busca da chamada história oral de Canudos
a história recomposta
a partir do depoimento dos sertanejos. Como começou a trabalhar na década
de 40, ainda alcançou vários sobreviventes do arraial do Conselheiro.
Por exemplo, Honório Vilanova, irmão do dono da principal loja de Canudos,
Antônio Vilanova, um dos homens mais próximos do Conselheiro. Honório
Vilanova, com o irmão e as respectivas mulheres, escapou de Canudos nos
últimos dias da guerra, como vários outros conselheiristas. Veio a morrer
com mais de 100 anos. Uma vez, contou a Calazans que quando conheceu Maciel,
em Assaré, no Ceará Honório também era cearense
, este era beato. Anos
mais tarde, ao reencontrá-lo na Bahia, já era conselheiro. "E há
diferença?", perguntou Calazans. Honório explicou então que o beato
tira rezas, pede esmolas e ajuda os pobres. O conselheiro vai além: dá
conselhos. Qual seja, prega. Na hierarquia informal do sertão, a hierarquia
paraeclesiástica do misticismo sertanejo, o conselheiro situa-se acima
do beato.
Essas figuras de guias espirituais
surgiam no interior do Nordeste muito em função da ausência de padres,
explica o professor Cândido da Costa e Silva, da cadeira de História das
Religiões da Universidade Federal da Bahia, autor de Roteiro da Vida
e da Morte, um estudo sobre o catolicismo sertanejo. "Portanto,
não existiam para contestar a Igreja oficial, mas para suplementá-la."
O sertão não tinha padres como nas aldeias francesas, que davam assistência
permanente às famílias e acompanhavam-nas ao cemitério, inclusive, levando
seus mortos, prossegue o professor. Daí, os tiradores de reza e as incelências
eram figuras e fórmulas que supriam a falta de pessoal
e de liturgia oficial. A pessoa ascendia à condição de beato ou conselheiro,
ainda segundo Costa e Silva, de forma natural, pelo destaque que haviam
obtido na sociedade, em virtude de sua liderança, capacidade de expressão,
piedade e outras qualidades.
Maciel jamais ousou ir além do que
permitia sua condição. Nunca se aventurou a ministrar sacramentos. Tampouco
podia ser acusado de desvios de doutrina, pois não pregava senão a teologia
conservadora daqueles rincões e não aconselhava senão práticas de longa
tradição sertaneja, como o jejum, quanto mais jejum melhor, caminhadas
longas, até se esfalfar, e carregar pedras, para pagar os pecados. Mesmo
assim, a hierarquia da Igreja lhe era crescentemente hostil. Em 1887,
o arcebispo de Salvador, dom Luís Antônio dos Santos, cobrou providências
ao governo do Estado, que por sua vez pediu socorro ao governo do Império.
A idéia era internar Maciel no Hospício Dom Pedro II, no Rio de Janeiro.
A autoridade imperial consultada respondeu, no entanto, que não havia
vaga no referido hospício. Em seu ímpeto repressor, na verdade, a autoridade
eclesiástica aliava-se à aflição dos coronéis do sertão, que se viam ameaçados
duplamente, no poder econômico e no poder político. Estudiosos contemporâneos,
como o brasilianista americano Ralph Della Cava, demonstraram como o Conselheiro,
e também o padre Cícero, no Ceará, na mesma época, drenavam a mão-de-obra
das fazendas, ao mesmo tempo que retiravam da influência dos chefetes
os votos de cabresto que lhe garantiam o controle dos instrumentos do
Estado.
Acresce que, quando o movimento do
Conselheiro aproximava-se de seu auge, ocorre a mudança de regime no país,
de Monarquia para República, e o Conselheiro, tradicionalista como era,
recusa-se a aceitar o novo regime. A República era o Anticristo, era a
ordem de Satanás. Ousara separar a Igreja do Estado. E, entre outras disposições
odiosas, instituíra o casamento civil, roubando da Igreja a exclusividade
de celebrar matrimônios. Uma mulher casada no civil, segundo o professor
Costa e Silva ouviu de um sertanejo, em época bem mais recente, seria
uma "p... testemunhada". O novo regime também delegara aos municípios
a faculdade de instituir impostos. Certa vez, o Conselheiro encontrou
os habitantes de Natuba inconformados com os impostos anunciados em editais
no centro do povoado e incentivou-os a destruí-los. Foi seu primeiro gesto
de desobediência civil. Em conseqüência, uma tropa policial saiu-lhe ao
encalço. Depois de um choque violento, na localidade de Masseté, que resultou
em três mortos de cada lado, a tropa retirou-se, mas para o Conselheiro
ficou um sinal de alerta. O clima crescentemente desfavorável pedia uma
decisão. Chegara a hora de mudar de vida. Depois de vinte anos de andanças,
ele se estabeleceria com sua gente num lugar onde pudesse rezar em paz,
aconselhar em paz e viver em paz, ao abrigo dos agentes do insano governo
dos incréus, ou dos bispos que faziam o jogo do Diabo. Nascia Canudos.
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Foto: Flavio de Barros |
O fotógrafo Flávio de Barros (foto
ao lado) tinha um estúdio em Salvador,
e isso é quase tudo o que se sabe dele. Nas últimas semanas
da guerra, seguiu para Canudos, comissionado pelos militares,
para cobrir a Quarta Expedição. A foto acima é uma de suas mais
famosas - a foto conhecida como das "prisioneiras",
embora, olhando bem, perceba-se que nela há homens também, no
fundo. As mulheres prisioneiras foram, uma vez destruído o arraial,
transportadas para Salvador. Os homens foram executados. Ao
longo desta reportagem, estão estampadas mais fotos de Flávio
de Barros. Foram selecionadas principalmente as que mostram
aspectos do arraial do Conselheiro - uma minoria,
dentro de um conjunto em que a ênfase do fotógrafo foi nos militares.
Se constituem um documento precioso, dos mais importantes da
história da fotografia no Brasil, as fotos de Flávio de Barros
apresentam também uma das mais lamentadas lacunas dessa mesma
história: por força da censura, ou das obrigações que o prendiam
ao Exército, ou ambas as coisas, ele deixou de documentar a
selvageria e as atrocidades que caracterizaram o fim do conflito. |
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