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Não, não ofende, e então Manuel Alves, mais conhecido por "Manuel Travessa", de 57 anos mas aparentando mais, pele morena e estorricada de sertanejo, chapéu de couro, dentes ruins, acende o cigarrinho que é seu companheiro inseparável. Estamos no carro que conduz o autor desta reportagem e o fotógrafo de VEJA do lugar chamado Bendegó, dentro do município de Canudos, à beira da estrada, antes de chegar à cidade propriamente dita, ao lugar chamado Alto Alegre, uma elevação à margem do lago no fundo do qual se encontram as ruínas da antiga Canudos. Quem foi Antônio Conselheiro para Manuel Travessa?
Euclides da Cunha escreveu em Os Sertões que a cidade
de Queimadas, para onde as tropas iam de trem, desde Salvador, antes de
enfrentar os caminhos poeirentos do sertão, assinalava uma fronteira:
"Salta-se do trem; transpõem-se poucas centenas de metros entre casas
deprimidas; e topa-se para logo, à fímbria da praça Há exagero nisso, certamente. Já havia exagero há 100 anos, e haverá ainda mais hoje, em considerar o sertão um mundo à parte do resto do Brasil. Mas, por mais que hoje em dia se esteja familiarizado com a região, por mais romance regionalista que se tenha lido, filme do cinema novo que se tenha visto, por mais música e novela de TV que se tenha digerido, o forasteiro será tomado pela sensação de um mundo meio encantado, a começar pela língua que ali se pratica. Dá vontade de reproduzir, tal e qual, a fala de Manuel Travessa.
Manuel Travessa não é um qualquer. Pode ser qualificado
como um empresário do sertão. Um empresário quase miserável, que vive
numa casa que Antonio Ermírio de Moraes não imagina possa preencher as
necessidades de um ser humano, come um tipo de comida que Abílio Diniz
não comeu nem quando foi seqüestrado e veste uma roupa que Moreira Ferreira
estranharia muito num companheiro da Fiesp, mas um empresário Mais significativas são suas realizações no Alto Alegre,
um lugar batizado por ele próprio ao chegar à região, em 1971, depois
das muitas perambulações pelo sertão, a partir de sua Monte Santo natal.
Só havia três casas no local, e a elas ele acrescentou a sua. Começou
a notar então que freqüentemente aparecia gente interessada em Canudos,
querendo informações e em busca de vestígios da guerra. Para tentar satisfazer
essa demanda, Manuel Travessa iniciou, em 1975, uma coleção de relíquias
Ao lado do museu, Manuel Travessa levantou uma capela, e
ao lado da capela, um salão de dança. Assim, pode-se rezar pelo Conselheiro
no local ou, alternativamente, convocar um forró. O conjunto de museu-igreja-salão
completa-se com uma escultura do Conselheiro em madeira e a de um canhão
também em madeira, além de duas cruzes, para compor o que poderia ser
chamado de praça monumental do Alto Alegre, se monumental fosse, ou mesmo
se praça fosse Contam-se três Canudos, ao longo da História. A primeira, do Conselheiro, depois de arrasada, ficou no seguinte estado, de acordo com o depoimento de um ex-conselheirista, Manuel Ciriaco, ao jornalista Odorico Tavares, em 1947, quando a guerra completava cinqüenta anos: "Era de fazer medo. A podridão fedia a léguas de distância, os bichos a gente via correndo pelos cadáveres e urubu fazia nuvem. Tudo abandonado, ninguém ficou enterrado. Foi quando Angelo dos Reis, por sua própria caridade, trouxe uns homens e enterrou ali mesmo a jagunçada morta. Todas essas colinas que o senhor vê estão cheias de ossos de jagunços. Acabou-se Canudos e, durante uns dez anos, só se vinha aqui de passagem". O Angelo dos Reis citado era um fazendeiro da região. Dez
anos decorridos, durante os quais o simples nome de Canudos fazia medo
na região Em junho último, foi inaugurado o Parque Estadual de Canudos.
Estendendo-se ao sul do açude, compreende uma área de 18 quilômetros quadrados,
em que se encontram sítios familiares a quem conhece a história da guerra:
o Alto do Mário, o ponto mais elevado, de onde hoje se descortinam o açude
e as montanhas ao redor; a Fazenda Velha O Parque foi uma idéia do professor Renato Ferraz, um dos
mais ativos lutadores pela memória de Canudos A parte visível do Parque Estadual de Canudos, que é administrado
pelo Centro de Estudos Euclides da Cunha, da Universidade Estadual da
Bahia, consiste, por enquanto, num portal de entrada e em placas de localização
dos sítios históricos. No decreto de sua criação, pelo governo do Estado,
estatui-se que deverão funcionar no local "museu, laboratório de
arqueologia, estação experimental de meteorologia, escolas experimentais
e outras instituições". Um trabalho de exploração arqueológica está
em curso, a cargo do arqueólogo paulista Paulo Zanatini. Trata-se de uma
arqueologia histórica, basicamente
No Alto Alegre, uma trinca de garotos de 11 ou 12 anos cerca-nos e se dispõe a levar-nos a um passeio de bote pelo lago. Um dos meninos, Gilmar, conta que o "painho" uma vez achou uma canela no chão. Ou seja, um osso da perna, ou o que ele supôs fosse um osso da perna. Não se pode ficar com esses achados, explica Gilmar. O pai então deu para um alemão. Um alemão? Não, ele não sabe direito se era alemão. Mas sabe que era uma pessoa que "não fala igual que a gente, não". No bote, passeando pelo lago, percebem-se, quase à superfície, encobertos somente por um palmo de água, as guarnições laterais de uma antiga ponte. Essa ponte fazia parte da estrada que cortava a segunda Canudos. Há também uma ruína que aponta para fora do lago. Trata-se da parte superior do portal de um cemitério, também da segunda Canudos. Da Canudos do Conselheiro, a única construção que sobrou de pé, ao fim da guerra, foi um cruzeiro que se erguia à frente da igreja velha. Às vésperas da inundação da área, o cruzeiro, de madeira, foi transportado para o povoado de Cocorobó, para onde estava sendo transferida a população. Ficou o pedestal de cimento em que ele se incrustava. No ano passado, o nível do açude baixou sensivelmente, e o pedestal, ou o que resta dele, emergiu das águas. Um pouco do Conselheiro voltava à tona. Ferraz, aquele que sabe tudo de Canudos e teve a idéia de instituir o parque, serviu de guia ao peruano Mario Vargas Llosa, em 1979, quando este realizava as pesquisas para seu romance sobre a Guerra de Canudos, A Guerra do Fim do Mundo. Um dia, Vargas Llosa e Renato Ferraz fizeram uma escala
na cidade sergipana de Simão Dias. No hotel onde se hospedaram, rústico
como todos na região, foram recebidos por um funcionário homossexual Manuel Travessa diz que ouviu uma vez do avô que Canudos seria destruída três vezes.
Esse avô de Travessa era o materno, de nome Mundu, um criador
de cabras. Ele explica que a mãe teve treze filhos antes dele. Depois,
"me conseguiu". E o pai? Do pai, Manuel Travessa não sabe: "Sou
filho de mulher particular". Manuel Travessa subiu na vida e hoje,
além de empresário, é político
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